Quando a trend passa, a formação permanece
Divulgação Por Cristiane Imperador, Coordenadora Pedagógica do Ensino Médio do Colégio Espírito Santo
Com certeza, muitas famílias e educadores já ouviram falar em "six seven" ou encontraram nas redes sociais a expressão "farmar aura". Em pouco tempo, palavras, gestos e brincadeiras deixam as telas e passam a ocupar as conversas entre amigos, as salas de aula e os momentos de convivência familiar. O que hoje parece estar em toda parte pode desaparecer rapidamente, substituído por outra expressão, outro gesto ou outro modo de interação.
Por isso, mais importante do que descobrir o que uma trend significa é compreender o que esses fenômenos revelam sobre a influência da cultura digital na formação de crianças e adolescentes. Afinal, quando conseguimos explicar completamente uma tendência, provavelmente outra já surgiu. O desafio está em acompanhar essas manifestações sem alarmismo, indiferença ou censura imediata, ajudando os jovens a desenvolver critérios para lidar com aquilo que encontram nas redes.
"Six seven" circula por meio da repetição, do ritmo, dos gestos e de referências compartilhadas. Seu sentido não é necessariamente literal nem estável. Dependendo da situação, pode funcionar como brincadeira, provocação, senha de pertencimento ou forma de chamar a atenção dos pares. "Farmar aura", por sua vez, combina um verbo associado à linguagem dos jogos com uma nova maneira de falar sobre presença, prestígio e reconhecimento, como se fosse possível acumular "aura" por meio de atitudes, falas e performances capazes de gerar admiração ou provocar reações.
Essas expressões não devem ser interpretadas apenas como repetições irracionais ou sinais de empobrecimento da linguagem. Elas fazem parte das práticas pelas quais os jovens constroem vínculos, experimentam identidades e negociam seu lugar nos grupos. A cultura juvenil sempre criou códigos próprios. Alguns leitores talvez se lembrem de expressões como "É nóis", "V1d4 l0k4", "Fica, vai ter bolo", que circularam pelo MSN, pelo Orkut, pelos fóruns, blogs e lan houses. Outros reconhecerão bordões como "senta que lá vem história", associado às narrativas televisivas da TV Cultura. A diferença é que, enquanto as expressões de outras épocas dependiam principalmente da televisão, da convivência presencial ou de comunidades virtuais mais específicas, as tendências atuais se espalham em poucos dias por vídeos, áudios, comentários e recomendações algorítmicas.
Mikhail Bakhtin, filósofo da linguagem, ajuda a compreender esse processo ao mostrar que nenhum enunciado existe isoladamente. Toda fala dialoga com outras falas, imagens, músicas, vídeos e experiências compartilhadas. Quando um adolescente repete ou adapta uma expressão viral, não está necessariamente apenas reproduzindo um conteúdo. Pode estar demonstrando que conhece uma referência, participando de uma piada coletiva, testando os limites da interação ou construindo determinada imagem diante dos colegas. O sentido se estabelece na relação entre os participantes e nas situações concretas em que a expressão é utilizada.
O nonsense também pode contribuir para compreender por que determinadas expressões circulam entre os jovens, sem que isso implique legitimá-las ou ignorar seus possíveis efeitos. Em Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll desloca as regras habituais da lógica e da linguagem produzindo situações que desafiam as expectativas do leitor. Essa aproximação não significa afirmar que uma expressão viral seja equivalente à obra literária de Carroll. A relação é outra: tanto o nonsense quanto certas manifestações da cultura digital revelam que a linguagem também pode criar ambientes de interação, deslocar regras e formar comunidades de intérpretes. A comparação ajuda a perceber que uma expressão aparentemente absurda pode adquirir funções específicas dentro de um grupo, como sinalizar familiaridade com determinada referência ou provocar reações entre os pares. Compreender essa dinâmica, no entanto, não significa considerar a tendência inofensiva em qualquer contexto, nem desconsiderar situações de constrangimento, exclusão, excesso ou pressão social; significa reconhecer que seus sentidos e efeitos dependem das circunstâncias em que ela é utilizada.
Jacques Gonnet amplia essa reflexão ao valorizar os saberes informais construídos na relação com os meios de comunicação. Crianças e adolescentes não apenas recebem os conteúdos que circulam nas redes: eles os observam, interpretam, repetem e modificam. Cabe à escola, portanto, conhecer esses repertórios para exercer uma mediação crítica, sem transformar toda manifestação juvenil em problema e sem tratá-la como necessariamente positiva. Em vez de simplesmente proibir ou aderir à tendência, o educador pode discutir em que situações ela aparece, quais comportamentos estimula, quem se sente incluído ou excluído e que consequências pode produzir quando chega à sala de aula. Dessa forma, a educação para as mídias não promove a trend, mas utiliza sua circulação como ponto de partida para desenvolver reflexão, responsabilidade e consciência sobre o uso das redes.
Essa mediação é especialmente importante durante a adolescência, período marcado pela construção da identidade, pela ampliação dos vínculos sociais e pela busca de reconhecimento entre os pares. A necessidade de pertencer não é nova, mas as redes sociais tornaram a visibilidade mais constante e mensurável. Curtidas, comentários, compartilhamentos e reações podem transformar a aprovação do grupo em uma espécie de indicador público de valor. "Farmar aura" expressa essa lógica de acumulação de prestígio, enquanto "six seven" pode funcionar como um marcador de participação em uma linguagem compartilhada.
Isso não significa que toda criança que repete uma expressão esteja enfrentando um problema ou que toda tendência seja prejudicial. Também não é adequado transformar brain rot em diagnóstico ou rótulo para qualquer experiência digital. A questão central é observar a relação que cada jovem estabelece com as redes: há equilíbrio entre o ambiente digital e outras dimensões da vida? Há espaço para sono, estudo, convivência, movimento e criatividade? O conteúdo provoca apenas diversão ou também produz ansiedade, pressão e sofrimento? A participação é espontânea ou está sendo imposta pelo grupo?
Diante de uma nova tendência, as famílias precisam evitar tanto o pânico quanto a omissão. Proibir imediatamente, ridicularizar a forma de falar dos adolescentes ou compartilhar informações sem verificar pode afastar o jovem e dificultar o diálogo. Uma abordagem mais produtiva começa pela escuta: perguntar onde ele viu a expressão, como os colegas a utilizam e o que acontece quando alguém não entende a referência. Também é importante conhecer as redes utilizadas pelos filhos, acompanhar os conteúdos consumidos e estabelecer limites claros para comportamentos que envolvam exposição excessiva, ofensas, constrangimento ou risco.
A mediação dos adultos não deve se resumir à vigilância. Ela precisa combinar presença, orientação, vínculo e coerência. Crianças e adolescentes necessitam de referências para compreender que nem tudo o que viraliza precisa ser reproduzido e que uma brincadeira deixa de ser inofensiva quando provoca sofrimento ou ultrapassa os limites de outra pessoa.
A escola participa desse processo ao promover educação digital, desenvolver competências socioemocionais e trabalhar valores relacionados ao respeito, à responsabilidade e à convivência. Pode ajudar os estudantes a analisar como os conteúdos se espalham, por que algumas expressões viralizam, de que maneira os algoritmos influenciam a atenção e como as escolhas individuais afetam os outros. A escola não substitui a família, mas caminha ao seu lado na formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente o mundo em que vivem.
Por isso, o desafio nunca será apenas uma trend. Assim como muitos adultos ainda reconhecem "senta que lá vem história", "six seven" e "farmar aura" também passarão, dando lugar a novos bordões, gestos e códigos. A diferença é que as expressões atuais circulam com muito mais velocidade e chegam facilmente a diferentes espaços da vida cotidiana. O que permanece, portanto, é a necessidade de preparar crianças e adolescentes para lidar com os próximos conteúdos e desafios da internet com autonomia, discernimento e responsabilidade.
Educar para o mundo digital não significa controlar cada tendência, mas criar condições para que os jovens pensem antes de reproduzir um comportamento, compreendam suas consequências e façam escolhas conscientes. Conhecer as linguagens juvenis permite aproximar-se dos estudantes; compreendê-las criticamente possibilita orientá-los com mais clareza e responsabilidade. Quando família e escola atuam em parceria, a cultura digital deixa de ser apenas motivo de preocupação e passa a constituir também um espaço de diálogo, aprendizagem e formação. É nessa articulação entre informação, reflexão e responsabilidade que o conhecimento se transforma em consciência.
1 Brain rot é uma expressão em inglês traduzida literalmente como "cérebro apodrecido". O termo se popularizou para descrever a suposta perda de qualidade do pensamento ou da atenção associada ao consumo excessivo de conteúdos digitais considerados triviais ou pouco desafiadores. Em 2024, foi escolhido como Palavra do Ano pela Oxford Languages. Neste artigo, a expressão é utilizada como referência ao debate sobre hábitos digitais, e não como diagnóstico médico ou psicológico.




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