Ádri Fernandes
Herculine Barbin, David Soares e Marino Marques
O pioneirismo das cirurgiões de adequação de genitália em Belo Horizonte em 1917
Herculine BarbinRecentemente, por uma postagem no Instagram, uma placa em um túmulo no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte/MG, trouxe à tona um mistério e um tema polêmico. A placa dizia: Herculine Barbin, hermafrodita do final do século XIX que, diante da exigência médica de eleger um de seus sexos, se suicida. A polêmica está óbvia. O mistério: Herculine viveu e morreu na França, então o que fariam aqui seus restos mortais?

A questão é que alguém, que nunca se saberá quem nem quando, decidiu homenagear a pessoa mencionada, colocando a lápide em um túmulo qualquer no quarteirão mais nobre daquele cemitério (no local estão enterradas duas crianças falecidas na década de 1940). Para a conhecer a história toda, ouça ao episódio Asteriscos, da Rádio Novelo Apresenta.
A hermafrodita francesa
Herculine Adelaide Barbin, francesa nascida em 1838, foi criada como menina, estudou em um convento e tornou-se professora em um colégio para meninas. Ao enamorar-se, o pretendente logo descobre que ela era diferente das outras garotas e a faz procurar um médico que identifica uma vagina muito pequena, assim como um pênis minúsculo. Verificada a existência de testículos internos, foi obrigada a mudar seu nome para Abel Barbin e a viver como um homem. O caso foi descoberto pela imprensa e ela teve que mudar de cidade, para fugir do assédio dos curiosos. Nunca mais conseguiu emprego, viveu na miséria escrevendo suas memórias e matou-se aos 29 anos, em Paris, em 1868. Seu diário conta o sofrimento por não se compreender homem.

Herculine Barbin - foto: https://legacyprojectchicago.org/person/herculine-barbin
Alguma dúvida de que o caso pode representar qualquer pessoa intersexo ou transgênero nos dias atuais? Mais de 150 anos depois, a luta pelo reconhecimento da aceitação da própria sexualidade, a fuga do assédio dos curiosos, a dor pela rejeição, as dificuldades no mercado de trabalho e um número representativo de autoextermínio ainda marcam a vida de pessoas nessas condições. Registro aqui minha solidariedade a todos que, seja pela afetividade, sexualidade, tamanho do corpo, cor da pele ou deficiência, são discriminados apenas por serem quem são.
A pesquisa na tentativa de descobrir por quê uma homenagem a Herculine em local tão distante de sua terra natal trouxe à tona outra história interessantíssima de dois personagens mineiros: David Correa Rabello e Emília Soares.
Pioneirismo da adequação genital em Belo Horizonte
Ele, diamantinense nascido em 1885, médico-cirurgião radicado em Belo Horizonte, militante político preso em 1935, patrono da cadeira 62 da Academia Mineira de Medicina, falecido em 1939 após um AVC, gerou um burburinho na capital mineira quando, em 1917, “transformou uma mulher em um homem”. A paciente: Emília Soares, a Miloca.
Levada pelo pai ao consultório do doutor, por não ter menstruado mesmo já atingido 19 anos de idade, o médico logo identificou os traços masculinos: olhar que se conecta com o do interlocutor, voz grossa, frases perfeitas, passos firmes apoiando todo o pé e não apenas a ponta deles, grandes olhos, grandes dentes, pelos abundantes no rosto, não tinha seios, os ombros eram muito largos e, como se vê na foto, era muito mais alta que as colegas, tinha quadril estreito e era bastante desajeitada. Sim, eu sei que como eu, você, mulher, também se viu em algumas dessas características. Releve, era início do século passado.

Turma do colégio feminino em que estudou Emília Soares, que se tornou David Soares. Emília é a primeira dafila, à direita - foto: CEMEMOR/Faculdade de Medicina/UFMG.
Em exame mais íntimo, observa-se o pequeno desenvolvimento do pênis, o que fazia lembrar um clitóris um pouco maior que o normal, e o defeito na uretra, que era aberta em sua parte inferior (ao invés de sê-lo na parte superior da glande), parecendo uma vulva. Não se tratava de mudança de sexo e sim de hipospádia, ou pseudo-hermafroditismo; traduzindo: má formação genital. Diferente de Herculine, não havia vagina, tratava-se de um homem de fato. Tanto que, secretamente, Emília nutria afeição por uma colega de escola, mas considerava tratar-se de “sentimento pervertido”. Porém, operado, passa a chamar-se David, em homenagem ao cirurgião, e casa-se com essa colega.
A cirurgia foi realizada no Hospital São Vicente de Paulo, hoje ambulatório do Hospital das Clínicas da UFMG. Foi um escândalo e os jornais do país inteiro não apenas divulgaram o caso, como também passaram a acompanhar a vida de David, cotidianamente, sempre mencionando sua condição anterior, como Emília. Isso fazia com que fosse chacota por onde passava. Imagine o inferno!
Ambos os casos, Herculine (hermafrodita) e David (pseudo-hermafrodita) apontam o que passam ainda hoje pessoas intersexo e transexuais: a imposição médica sobre a sua vontade. Hermafroditas (verdadeiros e pseudo) são operados ainda bebês! Isso na verdade é uma mutilação.
Davi Soares, que nasceu em Ouro Preto, em 1898, faleceu de tuberculose em BH, em 1951, sendo enterrado no Bonfim, mesmo cemitério onde está a lápide em homenagem a Herculine Barbin. Sua cirurgia trouxe notoriedade nacional para o Dr. Davi Rabelo, já reconhecido por feitos corajosos, entre eles por operar a si mesmo da vesícula, mostrando tudo aos alunos.

O médicoDavid Rabello operando a si mesmo de apêndice, diante de atenta plateia de alunos - foto:
Seu caso foi o pioneiro, mas tais cirurgias continuaram acontecendo e repercutindo até o final da década de 1930, sendo ao todo 20 realizadas na capital mineira, até pouco antes do falecimento do cirurgião, muitas com o mesmo assédio jornalístico e ataques morais.
Foi o caso do servidor da Aeronáutica Marino Marques, nascido em Lagoa Santa/MG, que viveu por 27 anos como Maria Marques. Marino não queria ser operado, mas a aprovação de seu pai foi o suficiente para prevalecesse a vontade do Dr. Rabelo, que julgava corrigir um erro da natureza, em total desprezo à condição psicológica e emocional de seus pacientes.
Segundo conta um enteado de Marino, o padrasto foi uma moça muito bonita, de cabelos longos, que estava prestes a se casar com um moço quando a ambiguidade sexual foi descoberta. Após a cirurgia, em 1938, adotou o nome masculino e casou-se com uma viúva, já mãe de 4 crianças e, ainda assim, muitas foram as vezes em que os antigos conhecidos debochavam ao vê-lo com roupas “de homem”. Marino era corajoso e os enfrentava, o que não significava que não sofresse por isso, mas, como disse o enteado, sempre foi honrado e altivo. Faleceu em 1978.

Maria Marques / Marino Marques - foto: https://www.instagram.com/p/C2mg2QIu8CU/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==
Em todos os casos, pseudo ou verdadeiros hermafroditas, houve transição de gênero, afinal, como aponta Luiz Morando, autor do livro Miloca que virou David – intersexualidade em Belo Horizonte, são pessoas que chegaram à idade adulta com um padrão de gênero que precisou ser descontruído para outro após a cirurgia e isso é muito mais complexo do que como foi tratado à época. Não há nenhum registro de amparo psicológico para os pacientes ou suas famílias.
E apesar de tanto tempo decorrido, tão pouco mudou. A Medicina, a Psicologia e o Direito tratam melhor esses casos (ainda têm muito a evoluir), mas sociedade não. Pessoas continuam sendo atacadas por sua aparência e/ou suas transgeneridades e... Ninguém as defende. Ninguém se importa se um hermafrodita ou transgênero se mata, diante do peso da própria existência.
O histórico “revolucionário” e controverso de adequação genital em Belo Horizonte morreu junto com o médico que as conduzia e o assunto foi rapidamente varrido para debaixo do tapete das famílias tradicionais mineiras.




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