Aline Costa
Quando o amor também nos atravessa.
Nem toda proximidade traz descanso. Algumas aprofundam ainda mais a experiência de existir.
Depois de perceber que minha forma de sentir atravessava o trabalho, comecei a notar que ela não permanecia do lado de fora quando eu voltava para casa. Durante muito tempo imaginei que o lar seria o lugar onde toda a intensidade finalmente encontraria repouso. Descobri que o amor também amplia aquilo que somos capazes de sentir e, justamente por isso, os vínculos mais profundos acabaram se tornando também os lugares onde minha experiência com o mundo acontece de maneira mais intensa.
Existe uma ideia muito difundida de que encontramos paz quando encontramos quem amamos. Nunca deixei de acreditar nisso. Minha família sempre foi meu porto seguro, o lugar para onde retorno quando tudo parece excessivo. Ainda assim, percebi que segurança e intensidade não são opostos. Quanto mais espaço alguém ocupa dentro de nós, maior também se torna nossa capacidade de ser atravessado por tudo aquilo que envolve sua existência. O amor amplia alegrias, amplia preocupações, amplia cuidados e amplia a presença do outro dentro da nossa própria vida.
Foi convivendo diariamente com meu marido, com minha filha, com meus animais e com as pessoas que fazem parte da minha história que compreendi que a hipersensibilidade não escolhe cenários. Ela acompanha todos os lugares onde existe vínculo. O mundo já chega até mim com intensidade, mas as pessoas que amo deixam de ser apenas parte desse mundo para se tornarem parte daquilo que também acontece dentro de mim.
Durante muito tempo questionei se eu havia sido feita para viver uma vida compartilhada. Não porque me faltasse amor, nem porque me faltasse desejo de construir uma família, mas porque a convivência exige uma presença constante diante daqueles que mais importam. Quando sentir faz parte da forma como existimos, amar alguém significa também abrir espaço para que outra vida passe a ecoar continuamente dentro da nossa.
Essa não é uma experiência de sofrimento. Também não é um peso produzido pelas pessoas que caminham ao meu lado. Ao contrário. Se existe um lugar onde encontro sentido para continuar caminhando, esse lugar sempre foi a minha família. O desafio nunca esteve no amor que sinto por eles, mas na intensidade com que esse amor passa a ocupar todos os espaços da minha percepção. Quem ama profundamente não apenas divide a vida; passa a carregar consigo um pouco da existência de cada pessoa que ama.
Foi somente depois de muitos anos que comecei a perceber o quanto isso exigia da minha própria regulação emocional. Não porque meus sentimentos fossem maiores do que os dos outros, mas porque eles permaneciam presentes durante muito mais tempo. Aprendi a observar meu próprio silêncio antes que ele se transformasse em irritação, a reconhecer o momento em que precisava recolher meus pensamentos antes que eles ocupassem as relações que mais desejava preservar e a compreender que cuidar de mim também era uma forma de cuidar daqueles que caminhavam ao meu lado.
Grande parte das pessoas imagina que o amor acontece apenas nos gestos que oferecemos ao outro. Aos poucos comecei a perceber que ele também se manifesta nas emoções que escolhemos não despejar sobre quem amamos. Existem batalhas que pertencem à nossa própria experiência e que não precisam se transformar no peso de quem compartilha a vida conosco. Nem todo sentimento precisa ser dividido para ser verdadeiro. Alguns precisam primeiro ser compreendidos em silêncio.
Essa percepção abriu diante de mim uma nova forma de observar as relações humanas. Passei a entender que cada vínculo possui sua própria linguagem, seus próprios desafios e uma maneira muito particular de ampliar aquilo que somos. A maternidade desperta lugares diferentes daqueles revelados pelo casamento. Ser filha produz perguntas que jamais apareceriam sendo mãe. A amizade toca partes da existência que nenhuma outra relação alcança. Cada encontro revela uma nova forma de amar e, ao mesmo tempo, uma nova forma de experimentar a própria vida.
Talvez seja justamente por isso que, a partir daqui, minha investigação deixe de olhar apenas para a maneira como existo no mundo e comece a percorrer os lugares onde essa existência encontra outras vidas. Porque foi dentro das relações mais importantes que descobri algumas das perguntas mais difíceis que já precisei enfrentar, e também algumas das respostas mais bonitas que a vida, silenciosamente, começou a oferecer.




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