Respirar Casamento
Menos perfeição, mais memória: por que a fotografia analógica voltou a conquistar os casamentos
Em uma época marcada pela velocidade, pela produção incessante de imagens e pela busca quase obsessiva pela perfeição, uma tendência aparentemente contraditória ganha força nos casamentos de 2026: o retorno da fotografia analógica.
À frente desse movimento está o fotógrafo Ricky Arruda, referência nacional na fotografia de casamentos há mais de 25 anos. Defensor da convivência entre o digital e o filme 35mm, ele acredita que o resgate do analógico não representa uma rejeição à tecnologia, mas um convite para desacelerar e valorizar o que realmente importa: a construção das memórias.
"Vivemos um tempo de imediatismos, do tempo andando rápido, da busca pelo perfeito, feito rapidamente. O analógico vem para desacelerar, vem para criar pausas. Tempo na execução e espera para a concretização, que só vem depois dos filmes revelados", afirma.
Para Ricky, não existe disputa entre os dois formatos. Enquanto a fotografia digital oferece agilidade, segurança e volume de registros, o analógico acrescenta profundidade emocional, presença e intenção. São linguagens complementares que ampliam a experiência dos noivos.
A escolha pelo filme, no entanto, traz desafios que exigem técnica e responsabilidade. Diferentemente das câmeras digitais, um filme 35mm permite cerca de 36 fotografias por rolo, enquanto um filme médio formato registra apenas 12 imagens.
Essa limitação transforma cada clique em uma decisão consciente.
"O filme exige precisão técnica para acertar fotometria e foco, e precisão artística para acertar o momento, o enquadramento e a composição. Muitas das câmeras que utilizo são antigas, algumas totalmente manuais. É preciso antecipar os momentos para não perdê-los", explica.
Por isso, mesmo sendo um entusiasta da fotografia analógica, Ricky faz questão de preservar a segurança que os casamentos exigem. Em suas coberturas, o digital garante a documentação completa do evento, enquanto o filme acrescenta camadas de sensibilidade e expressão artística.
"Temos o melhor dos mundos: a precisão do digital e a poesia do analógico."
A beleza do que é verdadeiro
Em um cenário dominado por filtros, inteligência artificial e edições cada vez mais sofisticadas, a fotografia analógica surge como um contraponto.
Segundo Ricky, o fascínio dos casais pelo filme está justamente em sua autenticidade.
"A fotografia analógica é verdadeira. Verdadeira na origem, nos grãos de prata que criam a imagem com a luz, e verdadeira no que retrata."
A estética granulada, as texturas únicas e a forma como a luz é registrada criam imagens que dificilmente podem ser reproduzidas digitalmente. Mais do que uma aparência vintage, o analógico oferece uma experiência visual carregada de identidade.
Mesmo em seus trabalhos digitais, Ricky evita excessos na pós-produção.
"Acredito em fotos bem feitas, bem capturadas e bem iluminadas, mas sem exageros de tratamento."
O valor de uma memória física
Outro aspecto que tem atraído os noivos é a permanência do registro físico.
Em tempos de arquivos armazenados em nuvens, dispositivos e plataformas que mudam constantemente, o negativo ressurge como símbolo de preservação.
"O negativo prova que aquilo realmente aconteceu, daquela maneira, obviamente através do recorte do meu olhar."
Essa materialidade ganha ainda mais força na entrega dos álbuns, produzidos com cuidado artesanal e pensados para atravessar gerações.
Para Ricky, um álbum de casamento não deve ser encarado apenas como uma lembrança do presente, mas como um documento histórico da família.
"Um álbum de fotografias é um documento. As fotografias, especialmente as de casamento, não devem ser pensadas só para o agora, mas para o sempre, para o futuro e para todas as gerações."
Ao falar sobre legado, ele recorre a uma reflexão do fotógrafo Sérgio Jorge, vencedor do Prêmio Esso de Fotojornalismo em 1960:
"Se você não tem uma foto antiga, você não tem a história de um acontecimento. Se você não tem hoje nenhuma foto dos seus avós ou da sua família, seus filhos não terão uma história para contar no futuro. E o futuro sempre quer ouvir uma história."
Um retorno às origens
Para Ricky Arruda, a fotografia analógica não é uma tendência passageira.
Sua própria trajetória começou no filme, durante uma temporada artística em Paris, quando produziu uma série fotográfica utilizando apenas uma câmera Nikon FM3 e filmes Kodak Tri-X 400 em preto e branco.
O trabalho resultou na exposição "classica: paris", editada por nomes consagrados da fotografia brasileira como Walter Firmo, Clicio Barroso e João Bittar, marcando o início de uma carreira que posteriormente o levaria a festivais nacionais e internacionais.
Décadas depois, ele retorna às mesmas câmeras que ficaram guardadas aguardando o momento certo para serem utilizadas novamente.
"Eu comecei fotografando com filme e hoje retorno a ele. Algumas das câmeras que uso eram minhas e ficaram guardadas para serem revividas na hora certa, que é agora."
Esse reencontro com as origens não significa abandonar a tecnologia. Pelo contrário. Seu projeto Alchimia propõe justamente a união entre a eficiência das modernas câmeras digitais e a sensibilidade do filme.
"É a melhor união de dois mundos para uma cobertura completa, diversificada, eterna e atemporal."
Fotografar menos para sentir mais
Em uma indústria acostumada a produzir milhares de imagens em um único evento, o analógico resgata uma prática quase esquecida: fotografar com intenção.
"Cada fotografia analógica é pensada, feita com calma. Um respiro em meio à profusão."
Para Ricky, o filme obriga o fotógrafo a desacelerar, observar e realmente enxergar a cena antes de apertar o disparador.
"Fotografar com câmera analógica nos obriga a olhar pelo visor, a enquadrar a foto de fato. Nos obriga a ver, mas mais do que isso, a enxergar."
Talvez seja justamente essa a razão pela qual o analógico voltou a emocionar tantos casais. Em um mundo acelerado, onde tudo parece descartável, ele oferece algo raro: permanência.
Mais do que fotografias, entrega histórias. Mais do que imagens, preserva memórias.
E, para quem acredita que o casamento é um capítulo destinado a atravessar gerações, isso faz toda a diferença.



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