Voices 2025: capital mais seletivo e ambição global são testes de fogo para startups brasileiras

Depois de um ciclo de euforia, em que o capital de risco parecia abundante e as métricas de disciplina ficaram em segundo plano, o mercado de venture capital no Brasil entrou em uma fase de depuração.
Foi essa a leitura apresentada por Bianca Martinelli, general partner da Alexia Ventures; Bruno Teixeira, sócio-fundador da Raio Capital; e Sidney Levy, presidente da Invest.Rio; em painel mediado por Juliana Ventura, editora-executiva de Pequenas Empresas & Grandes Negócios, no Startup Labs, palco com conteúdo exclusivo sobre empresas de base tecnológica dentro do Voices 2025, uma iniciativa da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio, com patrocínio da Prefeitura do Rio e Secretaria Municipal de Educação, apoio da Zapt, patrocínio das trilhas especiais por Claro Empresas e Insper e parceria da Play9. O encontro aconteceu nesta quarta-feira (10/12), no Museu de Arte do Rio, no Rio de Janeiro (RJ).
Teixeira lembrou que o Brasil viveu um período de “euforia” com startups, em que foram feitos investimentos “muito bons e outros nem tanto”, com critérios frouxos de avaliação e dinheiro aplicado em negócios com pouco fundamento econômico. Agora, diz ele, o cenário mudou: “Existe capital disponível. O difícil é você conseguir montar uma empresa que faça sentido”.
Martinelli reforçou o diagnóstico, com números recentes: o volume investido em venture capital na América Latina voltou a crescer, e o Brasil registrou alta nos aportes no último trimestre. A diferença, destaca, é o comportamento dos fundos. “O capital não desapareceu. Ele está mais exigente.”
Para os participantes, essa exigência se traduz em foco em eficiência de capital, unit economics sólidos, retenção de receita e um caminho claro para a lucratividade. Em outras palavras, crescimento por si só já não basta. “Os investidores olham muito para retenção, para como você paga o custo de adquirir um cliente e quão sustentável é o negócio no longo prazo”, afirmou Martinelli.
Capital global, Estado como infraestrutura e o peso da geografia
Se o dinheiro está mais criterioso, a competição também ficou mais ampla. “O capital é global hoje em dia”, resumiu Levy. Na sua visão, um empreendedor no Rio de Janeiro não concorre apenas com startups de São Paulo, mas com empresas do mundo inteiro.
Ao mesmo tempo, a explosão de soluções baseadas em inteligência artificial lembra, segundo ele, o início da indústria automobilística americana, quando mais de cem montadoras disputavam espaço até o mercado se consolidar em poucos grupos. “Vai ter uma depuração em algum momento. É normal que existam muitas e é bom que existam muitas, sabendo que muitas vão fracassar.”
Nesse contexto, o presidente da Invest.Rio defende um papel claro para o poder público: não substituir o capital privado, mas criar condições para que ele floresça. “Não é função do Estado arriscar o dinheiro do contribuinte em apostas. É função do Estado prover infraestrutura, desenvolver gente e talentos.”
Na Invest.Rio, isso se traduz em ações como patrocinar grandes eventos de inovação, aproximar empreendedores e investidores, formar talentos em matemática e tecnologia e investir em infraestrutura crítica, como data centers e computação de alto desempenho para treinar modelos de IA.
A discussão também expôs um desafio estrutural: a concentração geográfica do capital e das startups no Brasil. Segundo levantamento da Abstartups de 2025, mais de 65% das empresas de base tecnológica do país nunca receberam investimento. Na prática, a maior parte dos recursos continua concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e estados do Sul.
Para o sócio da Raio Capital, isso é resultado de uma combinação de fatores: pouca abertura econômica, burocracia alta, custo caro de crédito e a ausência de políticas coordenadas entre governo, academia e mercado. “Ser empreendedor é um trabalho muito ingrato no Brasil”, afirmou, destacando que ecossistemas bem-sucedidos no mundo conseguiram combinar universidades fortes, ambiente empresarial vibrante e proximidade com capital.
Levy enxerga na inteligência artificial uma chance de embaralhar as cartas e reposicionar o Rio. Ele citou iniciativas de incentivo fiscal na região portuária, programas para atrair empresas de tecnologia e o “Desafio Rio”, edital que apresenta problemas da cidade e convida startups a oferecer soluções que podem ser contratadas pelo poder público. “Quando embaralha as cartas, o jogo começa mais ou menos ao mesmo tempo para todo mundo”, disse.
Seleção mais dura, relação com o investidor e ambição para além do Brasil
Se a liquidez mais restrita tornou o capital mais seletivo, isso não significa que o risco tenha desaparecido. No early stage, a mortalidade segue alta, mas, para Teixeira, isso não deveria ser encarado como um problema em si. “Todo investimento é uma conta sobre risco e retorno”, disse.
O ponto, para ele, é ter clareza sobre o nível de risco assumido e o retorno esperado, em vez de tratar a volatilidade como surpresa. Nesse processo, a relação com os fundadores é central. A Raio Capital passou a valorizar ainda mais a proximidade com os times investidos, justamente para poder ajudar quando as coisas não saem como o planejado. “É muito produtivo, especialmente no começo da vida de uma empresa, que você tenha gente alinhada com você para fazer as perguntas difíceis”, disse.
Martinelli, por sua vez, destacou que, se o capital está mais rarefeito em ciclos mais longos, a expectativa de ambição também aumentou. Startups brasileiras, argumenta, não podem se limitar a pensar apenas no mercado doméstico. “O Brasil é um mercado enorme, mas hoje a tecnologia permite sonhar maior. A pergunta é: isso que está sendo construído aqui pode competir globalmente?”, questionou.
Para os fundos, a resposta passa por uma combinação de tecnologia robusta, dados proprietários, estratégia de go to market escalável e clareza sobre potenciais saídas, em um ambiente em que IPOs seguem raros e as aquisições tendem a ser o caminho mais provável de liquidez.
No fim do painel, a moderadora pediu um conselho para quem está do lado empreendedor. Teixeira resumiu em duas linhas: pensar grande e resolver problemas reais. “Pensar grande dá o mesmo trabalho que pensar pequeno”, afirmou. E emendou: “Boas ideias são ótimas na mesa de bar. Boas empresas resolvem problemas. Se você não tem cliente, não tem por onde começar.”
Martinelli reforçou a importância de resiliência, alinhamento entre sócios e capacidade de execução consistente ao longo do tempo, lembrando que o relacionamento entre fundadores é “mais longo que casamento”.
A mensagem final ao empreendedor, em um mercado mais exigente, ficou clara: capital existe, inclusive no early stage, mas ele vai atrás de equipes maduras, negócios sustentáveis e soluções que consigam se diferenciar em um cenário global cada vez mais competitivo.
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