Fundada em uma garagem, fábrica familiar de sorvetes aposta nos sabores amazônicos para ganhar o Brasil
Na infância, Édson Emídio Pereira sonhava em ser vendedor de picolé ou motorista de ônibus — e, por coincidência, o primeiro desejo acabou se realizando. Depois de 26 anos como representante de vendas de uma indústria farmacêutica, ele decidiu empreender. O momento coincidiu com a oferta de uma máquina de sorvetes colocada à venda por uma vizinha. Assim nasceu a Blaus, em 1991, em Belém (PA).
As primeiras produções aconteceram na garagem da casa da mãe de Édson. Ele montou o negócio para ele e os irmãos, que não engajaram na ideia, e passou a contar com o apoio da esposa, Marileni.
Lorena Pereira e Larissa Valério, filhas do casal, brincam que a Blaus é a irmã mais nova. Elas tinham 4 e 7 anos, respectivamente, quando a produção teve início. Lorena recorda do cheiro de açúcar na casa da avó e de como os colegas da escola queriam sempre fazer os trabalhos ali, de olho na sobremesa. Ainda novas, elas ajudavam como podiam na produção, fechando embalagens de picolé ou cortando frutas.
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“Meu pai sempre quis que a gente ficasse ali. Eu e minha irmã fomos para fora, trabalhamos com outras coisas, e vimos que dificuldade existe em todo lugar. Foi muito natural voltar para trabalhar com o sorvete e a Amazônia”, afirma Lorena. Até hoje, a Blaus é uma empresa familiar: o marido de Larissa, Mauro, entrou no time, mas isso não se restringe à liderança. O sorveteiro, por exemplo, está ensinando o ofício ao filho, que também vai trabalhar na companhia.
A Blaus produz mais de 46 sabores de sorvetes, com foco nas frutas amazônicas. São 15 toneladas de massa e 110 mil picolés por mês, em uma fábrica de 700 metros quadrados em Belém. Lorena, que assumiu o cargo de diretora de expansão, declara que o maior desafio é estocar as frutas que chegam de 25 fornecedores em diferentes comunidades do estado — relações de mais de uma década construídas por Édson. O açaí orgânico vem da ilha de Arapiranga; o coco, do Marajó.
A fábrica da Blaus produz 15 toneladas de sorvete de massa por mês, em máquinas italianas
Divulgação
“São relações de amizade que meu pai fez. Há uns 15 anos, começamos um trabalho de educação dos fornecedores para emissão de nota fiscal, muitos são analfabetos. Cada vez mais fica claro para nós que a produção da Blaus será em Belém para distribuir pelo Brasil, levando desenvolvimento para a população local”, pontua.
A Blaus trabalha com cinco linhas de sorvete: zero lactose e açúcar; amazônica, com frutas regionais; cremes; Brasil, com frutas de outras regiões do país; e picolés alcoólicos, em parceria com a AMZ Tropical, produtora de gin de jambu. Com a venda dos produtos em oito estados brasileiros, a diretora de expansão conta que se surpreendeu com a saída de alguns sabores locais fora do Pará.
“Eu fiquei surpresa porque as crianças associam o tucumã ao chiclete e adultos associam o uxi, uma fruta forte e gordurosa, à sobremesa de banana com conhaque. São duas frutas nativas”, comenta.
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A Blaus produz mais de 46 sabores de sorvetes, com foco nas frutas amazônicas
Divulgação
Para atender ao aumento da demanda durante a COP30 — conferência da ONU que acontece em Belém até 21 de novembro — a Blaus ampliou a produção em 30%. “Meu pai disse que nunca viu a cidade assim, já notamos um reflexo desde julho. O mundo se abriu para ver a nossa culinária e estamos na expectativa do pós, de colher bons frutos do legado que vai ficar”, diz Lorena.
Aos 72 anos, Édson continua presente no dia a dia do negócio: vai à fábrica diariamente e é responsável por colocar os palitos na máquina que faz os picolés. As filhas seguem seu principal ensinamento: constância.
“Ele ensinou a acordar todos os dias e não deixar a peteca cair. Ontem já foi e amanhã ainda não sabemos o que vai acontecer. E ele sempre dizia que, se não estiver com vontade de trabalhar, é melhor nem aparecer, mas pode ser que percebam que você não faz falta”, brinca Lorena, que se mudou para São Paulo para abrir uma loja na capital.
A Blaus tem 25 lojas, sendo sete próprias e as demais operadas por conhecidos que licenciam o uso da marca, registrada, por cinco anos. A taxa de abertura gira entre quatro e cinco novas unidades por ano. As irmãs estudam o modelo de franquias para lançar em 2026. Com faturamento acima de R$ 12 milhões em 2024, a Blaus projeta superar R$ 18 milhões de receita neste ano.
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