Janaína Guimarães: quando servir às pessoas se transforma em propósito
Primeira-dama de Betim fala sobre acolhimento, simplicidade, mulheres e a escolha de construir uma atuação pública marcada pelo cuidado e pela proximidade
Divulgação Há lugares que chegam até uma pessoa por escolha. Outros parecem chegar como consequência de uma trajetória inteira. Para Janaína Guimarães, primeira-dama de Betim, estar próxima da vida pública não significa apenas ocupar um espaço de visibilidade. Significa, sobretudo, estar perto de pessoas.
Graduada em Serviço Social, com trajetória profissional no comércio de Betim e experiências voluntárias ligadas ao tratamento de pessoas com câncer e ao cuidado de meninas em situação de vulnerabilidade, Janaína leva para a função uma relação antiga com o trabalho social. Desde 2025, ela também exerce voluntariamente a presidência de honra da Associação de Proteção à Maternidade, Infância e Velhice (Apromiv), instituição tradicional do município.
Em uma cidade que tem 431.433 habitantes, segundo a estimativa do IBGE para 2025, falar sobre cuidado significa falar com uma parcela expressiva de pessoas, histórias e realidades diferentes.
Mas Janaína prefere começar pelo que considera mais simples — e talvez justamente por isso mais difícil de encontrar: gostar de gente.
“Para estar neste lugar, a gente tem que gostar de gente. Porque, se não gostar de gente, a gente está no lugar errado.”
A frase aparece mais de uma vez em sua fala, quase como um princípio. Para ela, a proximidade com as pessoas não pode ser apenas uma característica desejável de quem ocupa uma posição pública. Precisa fazer parte da maneira de estar no mundo.
Um lugar que também é encontro
Janaína conta que veio de uma família simples e de uma realidade que, segundo ela, a ensinou a olhar para as pessoas sem criar distâncias. É dessa experiência que nasce uma das marcas que pretende levar para sua atuação: a capacidade de enxergar aqueles que muitas vezes passam despercebidos.
“Eu dou prioridade para aquelas pessoas que se sentiam invisíveis no olhar da sociedade”, afirma.
A escolha das palavras é significativa. Em vez de falar primeiro sobre grandes projetos, ela fala sobre tratativa — sobre como uma pessoa é recebida, ouvida e respeitada.
Para Janaína, muitas vezes uma mudança começa antes mesmo de uma solução concreta. Começa quando alguém encontra uma porta aberta e percebe que sua história merece atenção.
“Quando você trata o outro da forma que a gente gostaria que a gente fosse tratada”, resume.
Essa perspectiva ganha especial significado em sua atuação na Apromiv. A entidade, que possui natureza assistencial, desenvolve programas voltados a crianças, adolescentes, jovens, mães, gestantes, idosos e famílias em situação de vulnerabilidade social. Em 2025, a instituição passou por uma reorganização administrativa e ampliou seu escopo para possibilitar também ações nas áreas de educação e segurança alimentar.
A presença de Janaína nesse espaço acontece de forma voluntária e, segundo a Prefeitura de Betim, está ligada justamente à sua trajetória na área social.
O que acontece quando alguém realmente escuta
Existe uma diferença entre ouvir e escutar. Janaína parece saber disso.
Em sua visão, quem procura ajuda nem sempre espera que todos os seus problemas sejam resolvidos imediatamente. Muitas vezes, espera apenas encontrar alguém disposto a parar, prestar atenção e dizer com sinceridade o que é possível fazer.
Ela prefere a clareza às promessas.
“Eu não sou. Eu sou muito transparente com as coisas. Acho que a conversa tem que ser limpa, clara, realmente falando, olhando nos olhos e falando a verdade.”
Se não for possível resolver, ela acredita que é preciso dizer. Se houver uma possibilidade, também.
Essa postura é especialmente relevante em uma cidade de grande porte como Betim, onde a rede de assistência social atende demandas diversas. O município possui 16 Centros de Referência de Assistência Social (Cras), e iniciativas recentes têm buscado fortalecer vínculos comunitários e ampliar o atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Em abril de 2025, por exemplo, Betim inaugurou uma instituição de longa permanência com capacidade para 35 idosos em situação de vulnerabilidade, em um cenário no qual havia 32 pessoas aguardando vagas para acolhimento. A Apromiv estava entre as instituições que já operavam em capacidade máxima naquele momento.
São números que ajudam a dimensionar aquilo que Janaína encontra na prática: por trás de cada demanda, existe uma pessoa.
A força de não deixar de ser quem se é
Talvez uma das partes mais bonitas da conversa com Janaína esteja justamente na maneira como ela fala com as jovens.
Ela não se coloca como um modelo pronto ou como alguém que pretende ensinar outras mulheres a viver. Prefere contar a própria história.
“Não deixar de ser você.”
É a orientação que daria a uma menina que olha para sua trajetória e pensa sobre o próprio futuro.
Janaína lembra que veio de uma periferia, de uma família simples, e que sua mãe era dona de casa. Hoje, ocupa uma posição de destaque em uma cidade com mais de 430 mil habitantes.
Ela não atribui essa mudança apenas a uma conquista individual. Fala sobre uma oportunidade que, em suas palavras, não chegou como algo que havia planejado.
“Eu nunca imaginei estar nesse lugar.”
E talvez seja justamente por isso que sua relação com a posição esteja menos ligada ao status e mais ao compromisso.
“Eu estou aqui, sinceramente, para servir.”
Uma mulher puxando a outra
Quando pensa no legado que gostaria de deixar, Janaína não fala de placas, cargos ou títulos.
Fala de caminhos.
O desejo é que, daqui a alguns anos, sua passagem seja lembrada não apenas pelas ações realizadas, mas pela possibilidade de ter tornado o caminho um pouco mais acessível para outras mulheres.
“Uma mulher puxa a outra.”
A frase traduz uma compreensão de liderança que não depende de ocupar o centro. Pelo contrário: pressupõe abrir espaço para que outras também possam chegar.
Essa preocupação já apareceu publicamente em sua trajetória. Em setembro de 2024, antes mesmo de assumir como primeira-dama, Janaína participou de um encontro voltado à aproximação de mulheres com a política municipal, ao lado de outras lideranças femininas de Betim.
Em março de 2025, também participou de uma roda de conversa promovida pelo município sobre desafios relacionados ao universo feminino, como maternidade e carreira em ambientes historicamente masculinos.
Mais do que uma pauta institucional, para Janaína a participação feminina parece estar relacionada à ideia de uma mulher reconhecer na outra a possibilidade de ocupar novos espaços.
A primeira-dama que prefere o olho no olho
A posição de primeira-dama costuma ser associada a solenidades, eventos e representatividade. Janaína, porém, parece encontrar seu lugar justamente longe da formalidade.
Ela fala sobre entrar em diferentes ambientes, conversar com pessoas de diferentes pensamentos e tratar funcionários com igualdade.
“Não tem rótulos.”
É uma escolha que, para ela, começa pela educação e pelo cuidado.
Talvez por isso a imagem que emerge de sua fala seja menos a da mulher que está próxima do poder e mais a da mulher que tenta aproximar o poder das pessoas.
Em vez de criar uma distância entre quem pede e quem pode ajudar, ela fala sobre sentar, ouvir e responder.
Sem prometer o que não pode cumprir.
Sem transformar toda demanda em discurso.
Sem esquecer de onde veio.
O cargo passa. Janaína permanece.
Existe uma frase que atravessa toda a conversa e que parece resumir sua maneira de enxergar a vida pública:
“O cargo passa, a Janaína continua.”
É a partir dessa certeza que ela constrói a ideia de legado.
Porque, para ela, o que permanece não é necessariamente o nome em uma placa, a fotografia de uma solenidade ou o título associado a determinado período. O que permanece são as relações construídas, as portas abertas e a maneira como alguém se sentiu depois de ser recebido.
Sua intenção é deixar um caminho “mais humano e mais possível” para outras mulheres.
E talvez seja justamente aí que esteja a força de sua atuação: entender que influência não precisa ser sinônimo de distância, autoridade ou imposição. Pode nascer da escuta, da simplicidade e da capacidade de fazer alguém se sentir visto.
Em uma cidade do tamanho de Betim, isso não é pouco.
É uma escolha diária por lembrar que, antes de qualquer cargo, existem pessoas.
E que, para cuidar delas, é preciso primeiro olhar nos olhos.




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