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Brasil,25/08/2026

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    Liderança feminina: quando a mulher está na empresa, mas não é reconhecida como líder


    Liderança feminina: quando a mulher está na empresa, mas não é reconhecida como líder Gerada por IA

    Ela pode abrir a empresa, fechar o caixa, acompanhar funcionários, resolver problemas e conhecer cada detalhe da operação — e ainda assim terminar o dia acreditando que apenas “ajudou”. É nessa contradição que começa uma das faces menos discutidas da liderança feminina: mulheres que sustentam a rotina de negócios familiares, mas demoram a reconhecer que também ocupam um lugar legítimo nas decisões.

    O fenômeno ganha dimensão quando os números entram na conversa. Pesquisa do Sebrae mostrou que 59% das empreendedoras de micro e pequenas empresas tinham algum sócio familiar, contra 50% entre os homens. Na indústria de alimentação, a presença de parentes chega a 67%, revelando como família e negócio frequentemente dividem o mesmo espaço.

    Em Minas Gerais, levantamento do Sebrae encontrou outro retrato revelador: 56% dos negócios familiares tinham cônjuges ou companheiros envolvidos diretamente. O dado ajuda a entender por que a fronteira entre “ser esposa” e “ser gestora” pode ficar borrada. Quando papéis pessoais e profissionais se misturam, a contribuição feminina pode ser tratada como extensão da vida familiar, mesmo quando envolve responsabilidades empresariais reais.

    A história de Vanessa Ponzan traduz essa realidade de maneira concreta. Aos 15 anos, ela já participava da rotina da Ponzan Alimentos, acompanhando colaboradores, operações bancárias e a abertura e o fechamento da empresa. Foram décadas acumulando experiência. Ainda assim, segundo seu próprio relato, demorou para enxergar naquela atuação uma posição de liderança.

    O salto da operação para a estratégia

    A virada começou aos 32 anos, quando Vanessa decidiu voltar à faculdade enquanto criava dois filhos e permanecia ativa na empresa. A formação acadêmica não criou sua capacidade profissional; ajudou a dar nome e consciência a competências que já estavam presentes. Esse detalhe importa: muitas mulheres não precisam começar do zero, mas aprender a reconhecer o valor do caminho que já percorreram.

    O caso também conversa com um cenário mais amplo. O IBGE mostrou que, em 2022, mulheres ocupavam 39,3% dos cargos gerenciais no país. Nos setores de indústria de transformação, indústria extrativa, eletricidade e gás, a participação feminina era ainda menor: 31%. Ou seja, a distância não desaparece quando a mulher chega ao ambiente empresarial; ela também aparece nos espaços onde decisões são tomadas.

    Uma pesquisa divulgada pela FGV em 2026 reforça o contraste. Ao analisar companhias brasileiras listadas em bolsa entre 2010 e 2020, o estudo encontrou mulheres em apenas cerca de 12% dos cargos estratégicos considerados. O resultado não sustenta a ideia de que colocar mulheres no comando prejudicaria resultados financeiros — mas mostra que elas ainda estão longe de ocupar esses espaços em proporção significativa.

    Há, portanto, uma diferença importante entre trabalhar em uma empresa e ter autoridade reconhecida dentro dela. A primeira situação pode existir durante anos sem que a segunda aconteça. Em negócios familiares, essa distinção ganha peso porque decisões podem acontecer informalmente, conversas podem substituir reuniões e responsabilidades podem ser distribuídas pela confiança, não por funções claramente definidas.

    Reconhecer o próprio espaço

    A experiência de Vanessa aponta para uma mudança que não precisa significar disputa. Em vez de transformar a ascensão profissional feminina em uma batalha doméstica, o caminho pode passar pela definição objetiva de responsabilidades, metas, poderes de decisão e participação societária. Colocar isso no papel reduz ambiguidades e oferece segurança tanto para a família quanto para a empresa.

    Para quem vive situação semelhante, um exercício simples pode ser revelador: listar tudo o que efetivamente administra, todas as decisões que toma, os problemas que resolve e os resultados pelos quais responde. Depois, comparar essa lista com o cargo que ocupa oficialmente. A diferença entre as duas colunas pode revelar uma liderança que já existe na prática, mas ainda não foi reconhecida.

    A questão ultrapassa a experiência individual. A própria discussão empresarial vem se deslocando para modelos de liderança mais colaborativos, com maior valorização de redes, troca de conhecimento e desenvolvimento conjunto. Não se trata apenas de chegar à mesa de decisões, mas participar dela com autoridade, preparo e reconhecimento.

    Talvez a pergunta mais incômoda para muitas mulheres não seja “por que não me deixam liderar?”, mas “quantas vezes eu mesma tratei minha liderança como simples ajuda?”. Reconhecer a própria contribuição é um passo decisivo para transformar experiência em autoridade, especialmente nos negócios familiares. Se essa história parece familiar, faça o exercício, converse sobre responsabilidades e comece a ocupar conscientemente o espaço que você já construiu.





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