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Brasil,24/08/2026

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    Herança não é só patrimônio: o legado que pode sobreviver — ou desaparecer — com uma família

    Planejamento sucessório vai muito além da divisão de dinheiro e imóveis. Para Roberto Pereira, organizar patrimônio, conhecimento, valores e decisões ainda em vida é uma forma de preservar não apenas bens, mas a própria identidade construída por uma famíl


    Herança não é só patrimônio: o legado que pode sobreviver — ou desaparecer — com uma família

    Quando se fala em herança, é comum pensar imediatamente em imóveis, dinheiro, investimentos e outros bens que podem ser contabilizados e divididos. Mas existe uma parte daquilo que uma pessoa constrói ao longo da vida que não cabe em uma planilha, em um inventário ou em uma escritura: o legado.

    É justamente nessa diferença entre o que pode ser mensurado e aquilo que precisa ser transmitido que está um dos principais desafios do planejamento sucessório. Para Roberto Pereira, especialista em planejamento financeiro e investimentos, fundador e CEO da ATEX Investimentos, o patrimônio representa apenas a parte visível de uma história muito maior.

    “Dinheiro e imóvel são tangíveis. É aquilo que você consegue colocar um valor, registrar em cartório, dividir em uma planilha. Já um negócio construído com a cara do fundador, um histórico de decisões financeiras, como aquela pessoa lidava com dinheiro, questões comportamentais, éticas e as memórias que passam de pai para filho não cabem em inventário”, explica.

    Segundo o especialista, famílias podem dedicar enorme energia à disputa por um imóvel ou investimento e, ao mesmo tempo, não preparar os sucessores para aquilo que realmente sustentou a construção daquele patrimônio.

    “Vejo famílias inteiras brigando pela casa da praia e esquecendo de combinar quem vai tocar a empresa, desempenhar a função de união, conforto e orientação que cabia àquele ou àquela que construiu tudo. O patrimônio financeiro é a parte visível. O legado é o que sustenta esse patrimônio depois que quem sofreu para formatá-lo não está mais lá para explicar as escolhas.”

    Ter patrimônio não significa saber preservá-lo

    Para Pereira, patrimônio e legado são conceitos diferentes, embora precisem caminhar juntos.

    “Costumo dizer aos meus clientes que a diferença começa entre ter e saber usar. Ter patrimônio é tudo aquilo que podemos quantificar: contas bancárias, imóveis, participação societária, carteira de investimentos, enfim, o que é divisível. Já o legado é o que faz a pessoa que partiu ser lembrada e que poucos da família sabem fazer igual, como os critérios de escolha, os valores que buscava transmitir e a lógica por trás de cada decisão.”

    Essa transmissão, porém, não acontece automaticamente. Um filho pode receber um patrimônio milionário e não compreender como ele foi construído, quais riscos devem ser evitados ou quais decisões foram fundamentais para preservá-lo.

    Por isso, o planejamento sucessório não deveria ser encarado apenas como uma providência jurídica diante da possibilidade de morte. Ele também é uma ferramenta de educação financeira, governança familiar e continuidade.

    “As reuniões de família sobre esses assuntos não deveriam ser um tabu, mas compor a rotina. Quando ninguém fala sobre dinheiro em vida, os que ficam não sabem o que fazer depois da morte daquela pessoa que edificou tudo”, afirma.

    Nem sempre é possível escolher quem receberá tudo

    Outro ponto que costuma gerar confusão é a ideia de que uma pessoa pode determinar livremente o destino de todo o patrimônio que construiu.

    No Brasil, essa liberdade possui limites legais. Pereira, que além de atuar com investimentos e sucessão é advogado, explica que parte do patrimônio é obrigatoriamente reservada aos chamados herdeiros necessários.

    “Esse é um dos maiores mal-entendidos que vejo em reuniões de planejamento. No Brasil, metade do patrimônio é da família, quer o dono queira ou não. É a chamada legítima, reservada por lei aos herdeiros necessários: descendentes, ascendentes e cônjuge, conforme a ordem de vocação hereditária do Código Civil.”

    A outra metade corresponde à chamada parte disponível. É sobre ela que existe maior liberdade para o titular estabelecer sua destinação, inclusive por meio de testamento, respeitadas as regras aplicáveis a cada situação.

    “Muita gente monta um plano inteiro sobre a fantasia de que vai decidir 100% do que construiu. Não vai. E descobrir isso tarde, sem orientação jurídica adequada, é receita para o inventário virar um litígio dolorido para os que ficam”, alerta.

    A questão mostra por que planejamento sucessório exige mais do que uma conversa informal ou uma decisão tomada às pressas. É necessário compreender a legislação e avaliar quais instrumentos são adequados para cada família.

    Empresas familiares podem se transformar em campo de disputa

    Quando existe uma empresa entre os bens da família, a sucessão ganha ainda mais complexidade.

    Não basta decidir quem ficará com determinada participação societária. É preciso pensar em governança, responsabilidades, continuidade e na capacidade dos sucessores de administrar aquilo que receberam.

    “Uma empresa familiar sem acordo de sócios bem transparente vira um campo de disputa no primeiro desentendimento entre herdeiros que, a esta altura, talvez nem se falem mais”, afirma Pereira.

    Entre os instrumentos que podem ser considerados estão holdings familiares, protocolos de governança, cláusulas de saída e mecanismos para organizar a participação da segunda geração.

    O objetivo não é simplesmente impedir conflitos, mas reduzir a possibilidade de que a ausência do fundador provoque uma crise que comprometa o próprio patrimônio construído durante décadas.

    O patrimônio que ninguém lembra de colocar no inventário

    Existe ainda uma modalidade de patrimônio que cresce silenciosamente: o digital.

    Criptoativos, contas em corretoras internacionais, perfis comerciais que geram receita, negócios digitais e outros ativos podem representar valores significativos — mas frequentemente sequer são conhecidos pelos familiares.

    “Vamos supor que exista uma carteira de criptoativos, uma conta em corretora internacional ou um perfil comercial que gera receita na rede. Tudo isso precisa estar mapeado, com senha e acesso resolvidos de algum jeito, ou simplesmente vira pó quando a pessoa morre”, explica.

    O problema pode ser ainda mais grave quando a existência do ativo é conhecida, mas as informações necessárias para acessá-lo não estão disponíveis.

    “Em alguns casos, mesmo sabendo que existe muito dinheiro guardado em criptos, por exemplo, se a chave da carteira é desconhecida já nem importa mais o desejo e o direito sobre o que está lá guardado. Tecnicamente, o legado digital, em alguns casos, é impossível de ser recuperado sem uma organização prévia.”

    O melhor momento para planejar é antes da urgência

    Um dos maiores equívocos, segundo Pereira, é imaginar que planejamento sucessório deve ser iniciado apenas por pessoas idosas ou doentes.

    Na realidade, quanto mais cedo a organização começar, maior tende a ser a possibilidade de tomar decisões com tranquilidade, avaliar alternativas e preparar os sucessores.

    “O erro mais comum é achar que planejamento sucessório é coisa de quem já está doente ou muito velho. Na prática, o melhor momento para organizar isso é exatamente quando ninguém está pensando nisso, com saúde e cabeça fria.”

    Outro problema recorrente é misturar patrimônio pessoal e empresarial. Essa falta de separação pode tornar a sucessão ainda mais complicada e dificultar a continuidade de negócios.

    Mas, para o especialista, existe um terceiro erro tão importante quanto os dois primeiros: o silêncio.

    “Pais que nunca contam aos filhos como pensam a divisão deixam cada herdeiro construir sua própria expectativa, quase sempre incompatível com a dos outros. É o combo da confusão contratada.”

    Três movimentos para começar

    A orientação de Pereira pode ser resumida em três grandes movimentos.

    O primeiro é mapear todo o patrimônio, incluindo bens físicos, investimentos, empresas, seguros, previdência e ativos digitais.

    O segundo é escolher os instrumentos adequados para cada situação, como testamento, holding, seguro e previdência. Cada mecanismo possui uma finalidade diferente e precisa ser estruturado de acordo com a realidade da família.

    O terceiro é conversar sobre os critérios adotados.

    Isso não significa necessariamente revelar todos os valores ou transformar a família em uma reunião permanente sobre dinheiro. Significa permitir que os sucessores compreendam a lógica por trás das decisões.

    “Não tenha medo de comunicar aos herdeiros os critérios usados para sua decisão. Não digo que necessariamente os valores exatos devem estar na mesa, porém a lógica por trás da decisão sim, de maneira muito clara.”

    Para Pereira, essa conversa pode ser desconfortável, mas é justamente ela que pode evitar problemas futuros.

    “Família que conversa sobre dinheiro em vida raramente briga por dinheiro depois da morte. É um assunto chato, ninguém gosta e aí a ciência tem suas teorias para justificar esta resistência natural humana de falar na finitude da vida. Porém, é necessário, diria que fundamental, para manter a coesão da família antes que seja tarde demais.”

    Um legado não pode ser simplesmente dividido

    A principal lição do planejamento sucessório talvez esteja justamente naquilo que não pode ser colocado em uma escritura.

    Uma casa pode ser partilhada. Uma conta pode ser dividida. Uma participação societária pode ser transferida. Mas valores, conhecimento, reputação, histórias, responsabilidades e a maneira como alguém construiu sua trajetória precisam ser transmitidos de outra forma.

    É por isso que pensar em sucessão enquanto ainda há tempo não significa apenas decidir quem ficará com o quê. Significa preparar as pessoas que permanecerão para compreender, administrar e, quando possível, dar continuidade àquilo que levou uma vida inteira para ser construído.


    Sobre Roberto Pereira

    Roberto Pereira é especialista em planejamento financeiro e investimentos, com MBA em Investimentos e Private Banking pelo IBMEC/SP. É fundador e CEO da ATEX Investimentos, credenciada à EQI Corretora, do Grupo BTG Pactual, com atuação em assessoria de investimentos, planejamento financeiro e gestão de patrimônio. A empresa, segundo informações fornecidas pela assessoria, alcançou quase 3 mil clientes e aproximadamente R$ 300 milhões sob custódia em três anos.





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