Exposição 4 Patas: quando dois artistas deixam a própria assinatura para criar juntos
@mauro.foto Na inauguração do espaço Juçara Costa Arte e Cena, Juçara Costa e Miguel Gontijo apresentam uma exposição que transforma a interferência entre dois artistas em exercício de parceria, desapego e empatia.
Há obras que nascem de uma única mão. Outras começam com um artista e encontram, no caminho, o olhar de outro. É justamente nesse encontro que está a essência de 4 Patas, exposição que marca a inauguração do espaço Juçara Costa Arte e Cena, uma galeria própria que reúne trabalhos de Juçara Costa e do artista Miguel Gontijo.
A proposta da mostra vai além de colocar duas produções lado a lado. Em parte das obras, os dois artistas literalmente entram no trabalho um do outro. Juçara interfere na criação de Miguel. Miguel interfere na criação de Juçara. Um começa, o outro continua — sempre com o cuidado de preservar os rastros, as escolhas e a identidade de quem iniciou aquela obra.
“Um interagindo na obra do outro. Ela faz, eu interajo. Eu faço e ela interage”, explica Miguel. Segundo ele, o desafio está justamente em transformar essa participação em uma única obra, sem apagar completamente a marca do outro artista.
E aí está uma das provocações mais interessantes de 4 Patas: até onde estamos dispostos a permitir que outra pessoa entre naquilo que construímos?
Para Juçara, a resposta passa pelo desapego — e também pela coragem.
“É um trabalho que temos que desapegar e criar coragem”, afirma. Ela reconhece que existe, sim, um certo receio ao interferir na obra de um grande artista. Mas existe também a liberdade construída entre os dois: a permissão para experimentar, testar e até reconhecer que determinada intervenção não funcionou.
“Se não deu certo, não deu. Vamos experimentar”, conta.
Parece simples. Não é.
Abrir espaço para o outro interferir naquilo que carregamos como expressão pessoal exige confiança. É preciso abrir mão do controle e aceitar que uma ideia pode ganhar outro caminho sem, necessariamente, perder sua essência.
Para Juçara, essa dinâmica também conversa com um movimento que percebe na sociedade atual: a necessidade de desenvolver mais empatia e deixar um pouco de lado o excesso do “eu”.
Não é sobre apagar quem você é. É sobre descobrir o que pode nascer quando você permite que o outro também deixe sua marca.
Quando a arte deixa de ser solitária
A experiência também quebra uma característica bastante presente no processo artístico: a solidão do ateliê.
Miguel explica que a interferência entre artistas não é exatamente uma novidade. Ele cita o dadaísmo, movimento artístico em que experiências coletivas e novas formas de criação já faziam parte da provocação proposta pelos artistas.
Em 4 Patas, essa referência ganha uma nova leitura.
“A nossa arte é muito introspectiva, é o ateliê, o artista e uma solidão completa. Neste caso, a solidão não tem”, afirma Miguel.
E há ainda uma particularidade nessa parceria. Ao dividir o processo criativo com Juçara, ele não está apenas trabalhando com outra artista plástica, mas com uma profissional que também traz para esse encontro a experiência das artes cênicas.
“Eu estou trabalhando com uma artista não só plástica como atriz, então não tem solidão.”
Talvez seja justamente aí que a exposição encontre sua força: na capacidade de transformar o processo individual em experiência compartilhada.
Um espaço para a cidade
A exposição 4 Patas também representa o nascimento de um novo espaço dedicado à arte. A galeria Juçara Costa Arte e Cena chega com a proposta de aproximar artistas, público e conversas que ultrapassam a própria obra.
“Este espaço é para a cidade, é para você”, convida Juçara.
A ideia é manter os trabalhos dos artistas presentes no espaço e criar um ambiente de encontro, onde a arte possa ser vista, discutida e vivenciada de maneira mais próxima.
“Vamos ter sempre muito prazer de receber vocês e ter um bom papo sobre arte e vida”, afirma.
E talvez seja essa a melhor maneira de entrar em 4 Patas: não procurando apenas identificar onde termina a mão de um artista e começa a do outro, mas observando o que acontece quando duas essências decidem compartilhar o mesmo espaço.
Porque, no fim das contas, a exposição fala de arte, mas também fala de gente.
De confiança. De coragem. De desapego. De empatia.
E de uma escolha que parece simples, mas exige muito de nós: deixar o outro entrar sem deixar de ser quem somos.
É sobre arte. Mas também é sobre posicionamento diante da vida.
A história de Juçara e Miguel também nos lembra que criar, crescer e transformar não precisa ser um caminho solitário. Quando existe espaço para a troca, para a escuta e para a construção conjunta, novas possibilidades aparecem — na arte, nos negócios e também nas nossas carreiras. Se essa reflexão despertou em você a vontade de olhar para as conexões de outra forma, convido você a ler também minha matéria clicando aqui “Mulheres que Crescem Juntas: a nova liderança que está transformando carreiras e negócios”, na Revista Salto.
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