Movimentação de cargas na mineração exige gestão integrada de riscos e mudança de mentalidade operacional
Fernando Fuertes, da Acro Cabos, destaca que segurança no setor depende da integração entre engenharia, comportamento humano e decisões operacionais
Gerada por IA A movimentação de cargas permanece como uma das atividades mais críticas dentro da mineração — um setor que reúne operações de grande porte, ambientes severos e alta pressão por produtividade. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho mostram que o manuseio de materiais e a operação de equipamentos pesados concentram uma parcela relevante dos acidentes graves e fatais no Brasil. Ainda assim, mais do que a complexidade da atividade em si, o que sustenta esse cenário é a forma como o risco continua sendo percebido dentro de muitas operações.
Para Fernando Fuertes, especialista no tema e à frente da Acro Cabos, o principal equívoco está na leitura fragmentada dessa dinâmica. Segundo ele, tratar a movimentação de cargas como uma rotina operacional reduz a capacidade de antecipar falhas e amplia a exposição a eventos críticos. “A movimentação de cargas não pode ser vista como uma tarefa simples. Ela é um sistema complexo, onde qualquer falha na interação entre pessoas, equipamentos e ambiente pode gerar consequências em cadeia”, explica. Em contextos de alta produção, essa limitação se torna ainda mais evidente, especialmente quando a eficiência passa a competir com a segurança.
Nesse sentido, a transformação começa por uma mudança conceitual. Fernando Fuertes destaca que a gestão de riscos precisa partir de uma visão sociotécnica da operação, na qual segurança não se resume ao cumprimento de procedimentos, mas ao entendimento das relações entre fatores humanos, tecnológicos e organizacionais. Embora a NR 22 já estabeleça a necessidade de análises integradas, sua aplicação prática ainda varia significativamente entre empresas, abrindo espaço para inconsistências e vulnerabilidades operacionais.
Do ponto de vista técnico, esse olhar mais amplo exige um mapeamento detalhado das cargas e dos fluxos logísticos internos. Não basta conhecer peso e dimensão: é fundamental compreender o comportamento da carga durante o transporte, sua estabilidade, o tipo de acondicionamento e as interfaces com diferentes equipamentos. Como ressalta Fernando Fuertes, “o risco real está na dinâmica da operação. Uma carga pode ser segura no papel, mas instável na prática”. Estudos internacionais reforçam essa leitura ao apontar que falhas na fixação e no acondicionamento estão entre as principais causas de acidentes em transportes internos.
A incorporação de tecnologias como telemetria, sensores e monitoramento em tempo real tem ampliado a capacidade de controle das operações, permitindo identificar desvios antes que se transformem em incidentes. No entanto, essa evolução não elimina a necessidade de uma base física confiável. Fernando Fuertes chama atenção para esse ponto ao alertar que a tecnologia, quando dissociada da integridade estrutural, pode gerar uma falsa sensação de segurança. Em outras palavras, dados precisos não compensam falhas em componentes críticos.
É nesse contexto que os cabos de aço ganham protagonismo. Responsáveis por sustentar cargas, absorver esforços dinâmicos e garantir estabilidade em operações como içamento e movimentação vertical, esses elementos frequentemente operam como pontos silenciosos de risco. De acordo com Fernando, o problema não está na imprevisibilidade das falhas, mas na forma como os sinais são ignorados. “A falha em cabos dificilmente é súbita. Ela evolui ao longo do tempo, com sinais claros de desgaste, corrosão e fadiga — o que falta, muitas vezes, é a leitura correta desses indicativos”, afirma.
Na mineração, as condições operacionais intensificam esse desafio. A presença constante de poeira abrasiva, umidade, variações térmicas e ciclos repetitivos de carga acelera a degradação dos materiais e exige critérios mais rigorosos de especificação e manutenção. Por isso, a escolha do cabo deixa de ser uma decisão operacional e passa a ser, necessariamente, uma decisão de engenharia. Como destaca o especialista, um equipamento aparentemente adequado pode apresentar desempenho insatisfatório quando submetido às condições reais da operação.
Diante desse cenário, a inspeção periódica se consolida como um dos pilares mais importantes da gestão de riscos. Orientada por critérios técnicos e normativos, ela permite identificar sinais de desgaste antes que evoluam para falhas críticas. No entanto, sua eficácia depende diretamente da cultura organizacional. “Não é a existência da norma que garante a segurança, mas a forma como ela é aplicada no dia a dia”, reforça Fernando Fuertes, ao destacar que a disciplina operacional ainda é um dos maiores desafios do setor.
Apesar dos avanços em segurança, a movimentação de cargas continua sendo um ponto sensível na mineração. Superar esse quadro exige mais do que soluções pontuais: requer uma abordagem integrada, capaz de alinhar tecnologia, engenharia, processos e comportamento humano. Quando essa integração acontece, os ganhos extrapolam a redução de acidentes e se refletem em operações mais previsíveis, eficientes e resilientes. E é justamente nessa convergência que está o futuro da segurança no setor.




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