Camila Sol
Quando um desenho vira memória: o talento de Maria Terezinha
De uma sala de aula para uma exposição
Há encontros que acontecem por pouco tempo, mas permanecem na memória de uma maneira que nem sempre conseguimos explicar. Alguns ficam registrados em fotografias; outros, em pequenos objetos ou gestos que, na época, pareciam simples. No meu caso, uma dessas lembranças ficou guardada durante anos dentro de uma moldura. E foi justamente ela que me levou de volta a uma aluna que conheci quando ainda estava descobrindo minha própria experiência como professora.
Em 2023, tornei-me professora e Maria Terezinha estava entre os alunos de uma das primeiras turmas em que lecionei. Eu era professora temporária e não permaneci muito tempo com aquela turma, mas algumas crianças deixaram marcas particulares na minha memória. Maria foi uma delas. Talvez eu tenha reparado nela inicialmente pelos cabelos cacheados, que me lembravam os meus na época da escola, mas o que realmente fazia com que ela se destacasse era seu jeito: muito quietinha, observadora e sempre uma excelente aluna.
Quando a turma estava especialmente bagunçada, eu costumava brincar que na minha sala não existia democracia. Era uma monarquia, e a rainha era eu. Entre conteúdos, cobranças, risadas e a rotina escolar, fui construindo vínculos com aqueles alunos. E foi nesse cotidiano que Maria, em determinado momento, me presenteou com um desenho.
Professores costumam receber desenhos, bilhetes e pequenos presentes dos alunos. Crianças têm uma forma muito espontânea de demonstrar afeto, e muitas dessas lembranças acabam se perdendo com o passar dos anos. Com aquele desenho, porém, aconteceu diferente. Eu o guardei. Algum tempo depois, comentei em casa que gostaria de colocá-lo em uma moldura. Fiz isso e o mantive comigo. O desenho passou a ocupar um lugar na minha casa e também na minha memória sobre aquele período.
Dei aulas em 2023 e 2024 e depois não voltei a lecionar naquela escola. Como acontece tantas vezes, o contato com os alunos foi diminuindo. As crianças cresceram, seguiram outros caminhos e nós, adultos, também continuamos nossas vidas. Nem sempre conseguimos acompanhar o que acontece com cada aluno depois que ele deixa a nossa sala. Ainda assim, alguns permanecem.
Maria era uma dessas lembranças.
Eu nunca tive dúvida de que ela seria artista. Não sabia exatamente por qual caminho, nem imaginava necessariamente que seria pela pintura. Mas havia nela uma sensibilidade que me fazia acreditar que, em algum momento, encontraria uma forma própria de se expressar.
Até que, alguns anos depois, vi na internet a divulgação de uma exposição de arte em Mateus Leme. E reconheci o nome: Maria Terezinha.
Foi uma surpresa bonita encontrar aquela menina que eu havia conhecido na escola agora ocupando um espaço que eu sempre imaginei que ela poderia alcançar.
Uma artista que começou cedo
Desde a infância, Maria desenvolve interesse por desenhos, pinturas e trabalhos manuais. Além das pinturas, também produz miniaturas e já participou de exposições e competições artísticas.
Quem observa seus trabalhos encontra uma produção marcada pela variedade: figuras humanas, paisagens, elementos da natureza, universos imaginários, planetas, cores intensas e composições que misturam diferentes referências. Mais do que reproduzir aquilo que vê, Maria parece encontrar na pintura uma maneira de experimentar e construir imagens a partir da própria imaginação.
A mãe acompanha esse processo de perto e fala com orgulho sobre a relação da filha com a arte. Segundo ela, Maria se dedica desde pequena aos desenhos, pinturas, trabalhos manuais e miniaturas, além de participar de atividades e competições relacionadas às artes. Mas o orgulho não está apenas no talento artístico. Ela também destaca a doçura, o caráter e a maneira respeitosa como Maria se relaciona com as pessoas.
São características que, para uma mãe, têm tanto valor quanto qualquer habilidade artística.
E foi justamente essa menina que eu reconheci quando a reencontrei.
Uma exposição que também fala sobre oportunidade
A exposição das obras de Maria Terezinha teve início em 12 de agosto, às 18h, na Biblioteca Pública Geraldo Alves de Oliveira, em Mateus Leme, e permanecerá aberta por mais alguns dias. A abertura reuniu familiares, amigos, visitantes e representantes do poder público, entre eles o vice-prefeito e secretário municipal de Cultura, Anderson Wester de Souza, e a secretária municipal de Educação, Fátima Aparecida Gaia.

Mais do que colocar pinturas em um espaço público, uma iniciativa como essa cria uma oportunidade para que uma jovem artista seja vista e reconhecida. Cultura e educação se encontram justamente nesse ponto: muitos talentos começam dentro das escolas, das famílias e da própria comunidade, mas precisam de espaço para se desenvolver e chegar a outras pessoas.
A arte pode nascer de maneira silenciosa, em uma folha de papel, durante uma aula ou em uma pintura feita em casa. Antes de chegar a uma exposição, existe um processo de descoberta, tentativa, aprendizado e incentivo. Por isso, abrir um espaço público para apresentar o trabalho de alguém que ainda está começando é também uma forma de dizer que sua produção importa.
É uma maneira de aproximar a comunidade dos próprios talentos e de mostrar a outros jovens que criatividade e arte também podem ocupar espaços de destaque. Maria ainda está construindo sua trajetória, e talvez justamente por isso seja tão importante que ela tenha liberdade para experimentar, aprender e descobrir os caminhos que deseja seguir.
O reencontro
Quando soube da exposição, quis estar lá. E não fui apenas para conhecer as obras de Maria. Levei comigo o desenho que ela havia me dado quando ainda era minha aluna.
Aquele desenho continuava emoldurado na minha casa. Eu o levei porque queria que Maria pudesse vê-lo e soubesse que, tantos anos depois, eu ainda guardava aquela lembrança com carinho. Era uma maneira de mostrar que aquele gesto simples que ela teve comigo quando criança não havia sido esquecido.
Ao reencontrá-la, a emoção veio também da passagem do tempo. Já fazia anos que eu não a via. A menina quietinha que conheci em sala de aula havia crescido e estava diante de mim como uma jovem artista, cercada por trabalhos que revelavam o quanto havia experimentado, aprendido e desenvolvido seu próprio olhar.
Ela cresceu muito. E não apenas fisicamente. Havia uma evolução evidente em sua produção artística. As pinturas mostravam mais possibilidades, mais segurança e uma vontade de explorar diferentes temas e formas. Ver aquilo foi bonito porque me permitiu enxergar, de uma só vez, a distância entre a menina que me entregou um desenho e a artista que agora apresentava suas próprias obras.
Também tive a oportunidade de reencontrar sua mãe, com quem já havia tido contato anteriormente. Existe, inclusive, uma coincidência curiosa entre nós: ela também tem tatuagens. Na época em que nos conhecemos, cheguei a brincar perguntando se ela não tinha alguma tatuagem com desenhos feitos pela própria Maria.
Naquele reencontro, o tempo parecia estar presente em tudo. A criança que eu conheci havia crescido; a professora que eu era também já era outra. O que permaneceu foi aquela pequena lembrança guardada durante anos e a sensação de reconhecer, mesmo depois de tanto tempo, alguém que fez parte de uma etapa importante da minha vida.
Talvez essa seja uma das partes mais bonitas da relação entre professores e alunos: nem sempre sabemos o que fica depois que o ano letivo termina. O tempo muda os cenários, faz as crianças crescerem e leva cada pessoa para um caminho diferente. Mas algumas marcas permanecem. Um nome, um rosto, uma frase, um desenho. Pequenas coisas que atravessam os anos e, quando reaparecem, nos lembram de quem fomos e de quem passou pela nossa vida.
Quando alguém acredita
Ao observar as obras de Maria, pensei também sobre quantos talentos podem passar despercebidos simplesmente porque não encontram oportunidade para se desenvolver.
Uma criança que desenha durante uma aula pode estar apenas se distraindo, mas também pode estar descobrindo uma linguagem. Um jovem que passa horas pintando pode estar apenas experimentando, mas também pode estar começando a construir uma trajetória. Muitas vezes, a diferença está no olhar de quem está por perto e na disposição de incentivar.
Talento precisa de tempo, acesso, orientação e estímulo. Precisa também de pessoas que não tratem a criatividade como algo menor. Uma exposição como a de Maria transforma esse incentivo em algo concreto: torna seu trabalho público, permite que outras pessoas conheçam sua produção e mostra à própria artista que aquilo que ela cria pode dialogar com o mundo.
É assim que também se constrói uma cultura mais próxima das pessoas. Não apenas valorizando artistas já consagrados, mas criando espaço para quem está começando. Nas cidades, nas escolas, nas bibliotecas e nas famílias existem talentos que precisam de oportunidade para serem descobertos e desenvolvidos.
E, quando falamos de uma jovem artista, existe ainda outro cuidado: o incentivo não deve se transformar em cobrança. Maria não precisa ter todas as respostas agora. Precisa ter liberdade para continuar criando, experimentar técnicas, conhecer novas linguagens e descobrir o que a arte significa para ela.
A exposição não precisa ser o ponto de chegada. Pode ser simplesmente um dos primeiros capítulos.
O que permanece
O desenho que Maria me deu continua na minha casa, dentro da mesma moldura.
Hoje, porém, ele carrega um significado diferente. Quando o recebi, era o presente de uma aluna querida. Depois, tornou-se uma lembrança do início da minha trajetória como professora. Agora, também me lembra da artista que Maria está se tornando.
É curioso pensar que, quando ela me entregou aquele desenho, nenhum de nós poderia imaginar o que aconteceria anos depois. O tempo passou, nós mudamos, mas aquele pequeno gesto permaneceu.
Levei o desenho para a exposição justamente por isso: para que Maria pudesse enxergar que aquele momento também havia ficado comigo.
Ao mesmo tempo, diante de seus quadros, percebi que eu precisava atualizar a imagem que guardava dela. Maria já não era apenas aquela menina silenciosa e excelente aluna que conheci em 2023. Era uma jovem que havia crescido, experimentado, criado e encontrado na arte uma maneira própria de se expressar.
Talvez seja esse o privilégio de reencontrar alguém depois de muitos anos: perceber que o tempo não apaga necessariamente aquilo que vivemos. Ele transforma. As pessoas mudam, os lugares mudam, nós mesmos mudamos, mas determinadas lembranças permanecem como pequenas pontes entre diferentes momentos da vida.
Naquele dia, uma dessas pontes estava em uma moldura.
Fiquei feliz por ter ido, por ter levado aquele desenho e por poder testemunhar o quanto Maria havia crescido. Fiquei feliz também por ver a Prefeitura de Mateus Leme criando esse espaço de visibilidade para uma jovem artista.
Porque incentivar alguém que está começando é também ajudar a construir o futuro da arte.
Maria ainda tem muito a descobrir, experimentar e aprender. E isso não diminui o que já conquistou. Pelo contrário: torna ainda mais bonito acompanhar o começo.
Não sei exatamente onde a arte vai levar Maria Terezinha. Mas sei que ela já começou a construir esse caminho.
E, para mim, existe algo especialmente bonito em saber que, anos atrás, uma menina quietinha de cabelos cacheados me entregou um desenho que eu escolhi guardar.
Hoje, olhando para as obras que ela criou, entendo que aquele desenho não era apenas uma lembrança de uma aluna.
Era também uma pequena parte de uma história que ainda estava começando.
SERVIÇO
Exposição das obras de Maria Terezinha
Abertura: 12 de agosto, às 18h
Visitação: a exposição permanece aberta por mais alguns dias
Local: Biblioteca Pública Geraldo Alves de Oliveira
Endereço: Rua Pereira Guimarães, 720 – Centro, Mateus Leme/MG
Realização: Prefeitura de Mateus Leme, por meio das Secretarias Municipais de Cultura e Educação.



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