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Brasil,22/09/2026

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    Camila Sol

    A maquininha de tricô que esperou 30 anos por mim

    Entre uma escolha de infância e um sonho realizado na vida adulta, descobri que algumas vontades não envelhecem. Elas apenas aguardam o momento certo para voltar para casa.

    Arquivo pessoal
    A maquininha de tricô que esperou 30 anos por mim

    Há objetos que valem muito mais do que o plástico de que são feitos. Eles carregam lembranças, cheiros, vozes e versões de nós mesmos que ficaram guardadas em algum lugar da memória. A maquininha de tricô da Eliana sempre foi um desses objetos para mim.

    Quem cresceu nos anos 1990 certamente se lembra do fenômeno que foi Eliana. Muito além da televisão, ela se tornou uma das maiores marcas infantis do país, com dezenas de produtos licenciados que transformavam brincadeiras em experiências: fábricas de chocolate, sorveteiras (que também tenho até hoje), máquinas de balas, pipoqueiras e, entre elas, uma pequena máquina de tricô que despertou o desejo de milhares de crianças. Em uma época em que os licenciamentos infantis viviam seu auge, seus brinquedos alcançaram números impressionantes e marcaram definitivamente uma geração.

    Eu tinha seis anos quando a maquininha foi lançada.

    Naquele período, minhas férias eram passadas na casa da minha avó, em Nanuque-MG. Minha mãe me deixava lá por um mês inteiro e voltava para Belo Horizonte. Era um tempo de liberdade, descobertas e saudade ao mesmo tempo. Foi durante uma dessas férias que surgiu o grande desejo: eu queria aquela maquininha mais do que qualquer outro brinquedo. Mas eu também chorava muito e queria voltar para casa. 

    Então veio uma ligação que eu jamais esqueci.

    Minha mãe fez uma pergunta que, para uma criança, parecia impossível de responder:

    — Você quer a maquininha ou quer voltar para casa?

    Foi a primeira grande escolha da minha vida.

    Escolhi voltar.

    Naquele momento, sem entender completamente o peso da decisão, deixei para trás um sonho que me acompanharia pelas três décadas seguintes. A vida seguiu. Cresci, estudei, trabalhei, empreendi e construí novos objetivos. A maquininha desapareceu das vitrines, mas nunca saiu completamente da minha memória.

    Em 2024, enquanto administrava um brechó, passei a conhecer vendedores especializados nos mais diversos itens antigos. Foi pesquisando na internet que encontrei novamente a maquininha de tricô. Coloquei o anúncio nos favoritos e segui trabalhando. Sempre fui muito determinada a transformar sonhos em metas e metas em realidade. Curiosamente, eu ainda não havia percebido que existia um sonho de infância esperando pacientemente pela sua vez.

    Até que ela finalmente chegou.

    Quando recebi a encomenda, chorei.

    Não eram lágrimas por um brinquedo. Eram lágrimas por uma menina de seis anos que, finalmente, recebeu aquilo que tanto desejou. Pela primeira vez compreendi que, às vezes, a emoção não está no objeto, mas na oportunidade de oferecer ao nosso "eu" do passado aquilo que ele nunca pôde ter.

    Vivemos em uma sociedade que insiste em dizer que adultos precisam abandonar certos encantamentos. Que existe idade para sonhar, brincar ou realizar desejos considerados "infantis". Discordo completamente.

    Realizar um sonho nunca depende da data em que ele nasceu. Depende apenas do momento em que nos permitimos vivê-lo.

    Hoje, essa maquininha ocupa um lugar muito especial na minha casa. Não pelo seu valor como peça de colecionador, embora tenha se tornado um item raro, mas porque ela simboliza algo muito maior: algumas promessas que fazemos silenciosamente à criança que fomos merecem, sim, ser cumpridas.

    Talvez todos nós tenhamos uma "maquininha de tricô". Um livro que nunca compramos, uma viagem adiada, um instrumento que sonhamos aprender, um brinquedo, uma experiência ou qualquer desejo deixado para depois.

    A boa notícia é que o tempo não encerra todos os sonhos.

    Alguns apenas esperam que a gente volte para buscá-los.

    E, quando isso acontece, a emoção não tem absolutamente nada a ver com a idade. Tem a ver com fazer as pazes com a própria história.




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