Dependência em apostas online: quando apostar fica fácil e parar fica difícil
A história real de Fabiana mostra como perseguição das perdas, estímulos digitais e dificuldade de autorregulação podem se combinar — e por que recuperar o controle pode exigir reconstruir barreiras entre o impulso e a próxima aposta.
Imagem ilustrativa / Canva Quando a amiga chegou ao salão de estética, já passava das nove da noite. Fabiana estava descalça, chorando e passando mal. Precisava conseguir R$ 2 mil naquela noite para pagar um agiota. Segundo ela, o homem ligava sem parar, xingava e ameaçava ir até sua casa ou ao salão buscar bens se o dinheiro não aparecesse.
Fabiana pediu que a amiga fosse embora. Precisava ficar ali até encontrar uma solução.
Pouco depois, o marido entrou no salão e estendeu a mão.
— Me dá seu celular.
Desconectou também os computadores e levou os aparelhos. No dia seguinte, acompanhou a mulher a uma consulta psiquiátrica. Naquele momento, Fabiana acumulava dezenas de milhares de reais em dívidas com agiotas, clientes, amigos e familiares. O caixa da empresa que levara oito anos para construir estava praticamente zerado.
Fabiana é uma pessoa real e autorizou a publicação de seu nome e de seu relato nesta reportagem.
Não havia cassino entre Fabiana e o jogo. Havia um celular.
Sete meses antes, ela se considerava imune àquilo.
Eu era imune
Fabiana era microempresária, administrava uma clínica de estética, tinha cinco funcionários, era casada, tinha uma filha e uma vida financeira que descreve como estável. Já fazia acompanhamento em saúde mental, mas mantinha empresa, casa e compromissos sob controle.
Foi no próprio trabalho que viu uma funcionária mostrar o resultado de uma aposta. Mais de mil reais, segundo recorda. A comparação surgiu imediatamente: era muito dinheiro para quem passava o mês trabalhando por um salário modesto.
Fabiana olhou primeiro para um jogo de cassino on-line e descartou a ideia. Achou simples demais, dependente demais do acaso.
— Eu era imune — diz, ao recordar o que pensava.
Depois começou a ver no Instagram vídeos e transmissões de um jogo em que um avião sobe pela tela enquanto um multiplicador cresce. Encontrou anúncios de cursos que prometiam ensinar a “ler” o jogo. Comprou alguns e passou a interpretar resultados anteriores como um gráfico que poderia ajudá-la a escolher a hora de retirar o dinheiro.
A crença mudou de lugar. Para ela, já não parecia apenas sorte. Havia algo a aprender.
Fabiana passou a acreditar que sabia jogar.
No começo, apostava valores pequenos. Em algumas sessões, via o saldo crescer. O problema não era apenas ganhar. Era parar.
Quando perder faz apostar mais
Quando começava a perder, Fabiana tentava recuperar. Se apostasse R$ 10 e perdesse, por exemplo, podia dobrar a aposta seguinte. O dinheiro pessoal foi sendo consumido. Depois veio o da empresa. Dinheiro do marido, obtido às escondidas. Empréstimos. Clientes. Agiotas.
A ciência chama de loss chasing, ou perseguição das perdas, a tendência de continuar ou intensificar as apostas depois de perder para tentar recuperar o que já foi embora. Uma revisão científica publicada em 2023 descreve esse comportamento como um sintoma clínico importante do transtorno do jogo.
O transtorno do jogo é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais como um transtorno de comportamento aditivo. Em revisão publicada em 2025 em Debates em Psiquiatria, César Augusto Trinta Weber e Antônio Geraldo da Silva descrevem a rápida expansão das bets no Brasil como um problema de saúde pública.
A diferença entre o que Fabiana sabia e o que conseguia fazer aumentou.
Sabia que estava perdendo. Sabia que precisava parar. Escondia o comportamento da família. E continuava procurando dinheiro para apostar.
A psicóloga clínica Leslye Karen Costa, CRP 04/14409, observa que o reconhecimento do problema pode ser gradual. Ela também destaca a importância que barreiras externas e a rede de apoio podem assumir quando a pessoa encontra dificuldade para regular o próprio comportamento.
A história de Fabiana é individual. O cenário em que ela aconteceu, não. No primeiro semestre de 2025, 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas de quota fixa, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
A janela das escolhas
Uso aqui a expressão “janela das escolhas” como metáfora — não como diagnóstico nem como termo estabelecido pela psiquiatria ou pela neurociência. É o intervalo entre o impulso e a ação em que ainda podemos perceber o desejo, lembrar das consequências, considerar objetivos mais distantes e interromper um comportamento.
No transtorno do jogo, essa janela não necessariamente desaparece. Mas pode operar em condições menos favoráveis.
Uma meta-análise publicada em 2025 no Journal of Gambling Studies revisou 21 estudos; 17 entraram na análise estatística. Foram encontrados déficits significativos em flexibilidade cognitiva e controle inibitório, mas não em todos os domínios avaliados. Os autores também ressaltam a heterogeneidade das evidências.
A distinção importa. Dependência não significa ausência absoluta de decisão. Significa que, diante de determinados estímulos, desejos intensos e hábitos já estabelecidos, exercer controle pode se tornar mais difícil.
Ao ouvir a metáfora da “janela das escolhas”, Leslye a relacionou à autorregulação.
Fabiana torna essa ideia concreta. Depois que a família descobriu as apostas, vieram restrições de acesso e acompanhamento profissional. Mesmo assim, ela procurou brechas.
Dois meses depois da crise no salão, durante uma mudança, encontrou um telefone antigo no fundo de uma gaveta. Escondeu o aparelho, colocou-o novamente em funcionamento e voltou a apostar. Mais tarde descobriu outra abertura: o computador de casa não estava bloqueado. Houve nova recaída.
Não era apenas um estímulo encontrando uma pessoa passiva. Ela própria buscava caminhos de volta.
É por isso que reduzir sua história a “falta de força de vontade” explica tão pouco.
Um ambiente que não fecha
Há outra parte da equação fora do indivíduo.
No ambiente digital, a aposta pode acompanhar o usuário no bolso. Em julho de 2026, o Ministério da Saúde alertou que plataformas de apostas ficam disponíveis 24 horas por dia e utilizam recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis, capazes de estimular permanência e repetição.
Fabiana relata que, ao longo da trajetória, recebeu mensagens oferecendo bônus e jogadas gratuitas.
Há evidência experimental de que promoções podem alterar decisões. Em estudo publicado em 2025 com 622 homens menores de 40 anos, incentivos elevaram em mais de 10% o valor apostado e quase reduziram pela metade a proporção dos que decidiram não apostar. Pessoas com sinais de jogo problemático foram mais afetadas. O resultado não pode ser automaticamente generalizado para mulheres, para o Brasil ou para outras modalidades.
Muito antes das bets no celular, a antropóloga Natasha Dow Schüll investigou jogadores e a indústria de máquinas de cassino em Las Vegas. Em Addiction by Design, documentou práticas e discussões da indústria sobre tempo de permanência, repetição, desenho da experiência e rastreamento de jogadores. Seu estudo não descreve as bets brasileiras de 2026. Sua contribuição é outra: mostrar a importância de olhar para a interação entre pessoa, produto, ambiente e modelo de negócio.
É nesse sentido que uso a expressão “ecossistema da indústria da captura”: uma metáfora para o conjunto de mecanismos comerciais e tecnológicos que disputa atenção e pode favorecer entrada, repetição e permanência — publicidade, interfaces, bônus, notificações, disponibilidade contínua e uso de dados comportamentais.
A pergunta deixa de ser apenas por que alguém não consegue parar.
Passa também a ser: que ambiente existe em volta de quem está tentando parar?
O que os dados conseguem enxergar
Cada aposta deixa rastros: horário, valor, frequência, depósitos, pausas e retornos.
Em estudo publicado em 2026 com clientes de dois sites australianos de apostas esportivas e corridas, modelos de aprendizado de máquina conseguiram identificar usuários de maior risco utilizando apenas 30 dias de dados comportamentais.
Isso não prova que plataformas brasileiras usem inteligência artificial para identificar fragilidade emocional e explorar apostadores. Não temos evidência para afirmar isso.
Mostra algo mais preciso: padrões associados a maior risco podem ser identificados nos dados de uma conta.
No Brasil, as regras de jogo responsável preveem identificação de perfis e monitoramento do comportamento do apostador para prevenir danos, além de medidas de proteção a jogadores com comportamento problemático.
Surge então a pergunta central:
Se sinais de risco podem aparecer nos dados, o que deve acontecer quando eles aparecem?
A pergunta não transfere toda a responsabilidade para a plataforma. Mas também impede que toda a responsabilidade seja colocada sobre o indivíduo.
Para sair, foi preciso reconstruir barreiras
Depois das recaídas, a vida digital de Fabiana mudou. Ela relata usar controle de acesso e bloqueadores para sites de apostas, além da autoexclusão. O marido acompanha movimentações bancárias. Familiares e amigos próximos conhecem o problema. Ela permanece em tratamento e frequenta grupo de apoio.
— Eu estou cercada — resume.
A palavra poderia sugerir prisão. Na história dela, porém, o cerco também funciona como proteção.
A Plataforma Centralizada de Autoexclusão permite que uma pessoa bloqueie, de uma só vez, suas contas nas plataformas autorizadas, impeça novos cadastros com o mesmo CPF e deixe de receber publicidade direcionada das bets. Em 4 de agosto de 2026, o Ministério da Saúde informou que mais de 1 milhão de pessoas já haviam solicitado a autoexclusão. Entre elas, 35% apontaram perda de controle sobre o jogo como motivo.
AUTOEXCLUSÃO EM NÚMEROS
+ DE 1 MILHÃO
de pessoas já solicitaram a autoexclusão das plataformas de apostas autorizadas.
35%
apontaram perda de controle sobre o jogo como motivo.
O que acontece com o CPF autoexcluído:
as contas nas bets autorizadas são bloqueadas, novos cadastros ficam impedidos e a publicidade direcionada deve ser interrompida.
Fonte: Ministério da Saúde e Ministério da Fazenda — dados consultados em 10 de agosto de 2026.
É um número que conta algo além do tamanho do mercado: centenas de milhares de pessoas reconheceram que precisavam colocar uma barreira entre si e a próxima aposta.
A família também precisou aprender. O marido de Fabiana conta que, no início, predominava a raiva. Parecia incompreensível que alguém, vendo as consequências, continuasse jogando. Mais tarde, buscou compreender o problema e como permanecer ao lado dela.
O medo, porém, não desapareceu. Ele diz que a família passou a viver com um “medo eterno”. Quando Fabiana anuncia que precisa contar alguma coisa, todos ficam tensos e imaginam que possa ser jogo outra vez.
Leslye chama atenção para outro custo da recuperação: vergonha, culpa e perda de credibilidade. E ressalta que a família precisa compreender o transtorno para não transformar cuidado em julgamento moral.
Fabiana não fala em cura definitiva. Prefere um horizonte menor.
Um dia.
Depois outro.
Ainda reconhece a possibilidade de recaída. A diferença é que agora existem mais coisas entre o impulso e a aposta: bloqueadores, família, tratamento, grupo — e, gradualmente, a própria capacidade de interromper o movimento.
Recuperar o controle, no caso de Fabiana, não foi simplesmente reaprender a dizer não. Foi reconstruir o espaço entre a vontade e a ação para que o “não” voltasse a ter tempo de existir.
— Hoje eu não joguei. Só hoje e pronto.




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