Marciele Delduque: Maternidade, acolhimento e resistência
Recomeços, engajamento e transformação social.
Marciele Delduque: Recomeços, engajamento e transformação social. A trajetória de Marciele Delduque é feita de voltas que transformam. Antes de se tornar um dos nomes mais potentes do empreendedorismo social e da promoção de oportunidades nas favelas mineiras — ocupando cargos de liderança e fundando projetos de impacto — sua história começou dentro da escola, em um cenário que inicialmente não ofereceu acolhimento.
Aos 15 anos, grávida, Marciele deixou os estudos. Faltava apoio, diálogo e informação. A escola, que poderia ser seu espaço de proteção, tornou-se um ambiente de silêncio. Ela precisou se afastar para sobreviver emocionalmente. Sua mãe, Marlene Procópio, recorda esse período com intensidade:
“Eu senti medo, sim. Medo porque minha filha era muito nova para viver uma experiência tão radical — de menina, tornou-se mãe. Foi difícil enfrentar a sociedade, mas eu estive com ela o tempo todo.”
Aos 19 anos, acompanhando a filha na rotina escolar, Marciele decidiu voltar a estudar. Encarou a oitava série com coragem, convivendo com colegas mais novos e ressignificando sua própria história. Nesse retorno, encontrou algo que não existia quando saiu: acolhimento genuíno. A diretora Elizabeth Cota tornou-se uma figura fundamental, enxergando nela potencial e oferecendo o apoio institucional e humano que lhe faltou na adolescência.
Sobre o contexto educacional da época, Elizabeth reforça:
“Muitas vezes, diretores ou gestores, por visões antigas de autoridade, negavam matrícula por idade, cor, condição social ou desconhecimento da lei. A escola precisa compreender que estudar é um direito inquestionável — não se discute, se garante. Falta, ainda hoje, mais sensibilidade, informação e respeito ao aluno. Se ele não se sente acolhido, ele desiste. E a perda é sempre da escola.”
Foi nessa nova escola, mais humana e consciente, que Marciele deu seus primeiros passos como líder comunitária. Começou mediando conflitos entre colegas, prevenindo brigas e fortalecendo o diálogo. Criava pontes e transformava desafios cotidianos em aprendizados coletivos. Ali nasciam as sementes do impacto social que mais tarde ganharia escala.
Elizabeth relembra o retorno da aluna:
“Quando a Marciele voltou, em 2005, o acolhimento fez toda a diferença. Eu a recebi com o respeito que qualquer aluno merece e logo reconheci sua força e potencial. Ela não foi apenas mais uma aluna — foi ‘a’ aluna. Criou projetos como o Recreio Legal e o jornal Escola em Ação, que reduziram conflitos e uniram a comunidade. Ela floresceu porquecreditamos nela, e a escola também floresceu por causa dela.”
O caminho do empreendedorismo: das quedas às redes de apoio
Marciele sempre carregou um desejo intenso de empreender e transformar a realidade da quebrada onde cresceu. Antes do reconhecimento, começou sozinha: sem mentor, consultor, planejamento ou conhecimento técnico. Tentou empreender oito vezes — delivery de pizza, loja de R$ 10, máquina de sorvete e outras iniciativas. Na época, enxergava tudo como fracasso. Hoje entende que eram degraus necessários.
Ela investiu tudo que tinha — às vezes o valor equivalente a uma casa ou um carro — acreditando que isso mudaria sua vida. Mas faltavam plano de negócios, visão de mercado, gestão e estrutura emocional. Na oitava quebra abriu um salão, onde se aproximou de mulheres que também haviam quebrado, ou queriam começar, mas não sabiam como.
Foi nesse ambiente que ela entendeu: ninguém deveria empreender sozinha.
Para criar um espaço seguro de troca, Marciele marcou um café simples na varanda de casa. Convidou 17 mulheres: amigas, clientes e vizinhas. Nesse encontro, compartilharam inseguranças, dores, dúvidas e, sobretudo, forças. Perceberam que, como mulheres periféricas e trabalhadoras, precisavam criar uma rede para tornar a jornada mais leve — não mais fácil, mas menos solitária.
O encontro fez tanto sentido que decidiram repetir, permitindo que cada participante levasse outras três mulheres. No terceiro café, já não havia espaço na varanda. As fotos, postadas no Facebook, alcançaram mulheres de outras comunidades.
Foi nesse momento que o Sebrae encontrou Marciele. Um consultor, ao ver as postagens, procurou o grupo. O encontro coincidiu com o lançamento do Sebrae Delas, programa voltado ao empreendedorismo feminino. Na mesma época, o rompimento da barragem em Mariana abalou emocionalmente toda a região e reforçou a urgência da união, do cuidado e do fortalecimento comunitário.
A partir dali, o que começou na varanda da casa de Marciele tornou-se um movimento estruturado, reconhecido e apoiado: uma rede onde mulheres aprendem, empreendem, se fortalecem e se levantam juntas — para que nenhuma outra precise quebrar oito vezes para descobrir seu potencial.
Mensagem aos jovens e às mães
Elizabeth deixa um recado aos jovens:
“Aos jovens, eu digo: conheçam seus direitos e não desistam. Muitas vezes vocês saem da escola não por falta de capacidade, mas por falta de acolhimento. Persistam. A história da Marciele é prova disso: ela enfrentou preconceitos, retornou, venceu obstáculos e hoje inspira o país. Se ela tivesse desistido, o mundo teria perdido um tesouro. Não deixem que a falta de acolhimento decida o futuro de vocês.”
E a mãe de Marciele, Marlene Procópio, deixa seu conselho às mães:
“Eu diria às mães que apoiem e incentivem seus filhos a não se afastarem da escola e, principalmente, a não desistirem dos sonhos. A gravidez precoce é um desafio enorme, mas com apoio tudo fica mais leve e possível, até para enfrentar os julgamentos.”
Quando perguntada sobre o que diria à Marciele de 15 anos, Marlene se emociona:
“Marciele sempre foi muito decidida. Que ela continue sendo essa mulher guerreira, batalhadora e incrível que é. Tenho muito orgulho dessa mulher extraordinária que ela se tornou.”
A líder que inspira o Brasil
Hoje, Marciele Delduque é referência nacional.
É presidenta da CUFA Minas, liderando projetos de cidadania, cultura e empreendedorismo.
É fundadora da Rede Marianas — Mulheres que Inspiram, que impulsiona o crescimento de mais de mil mulheres negras e periféricas.
É idealizadora da Expo Favela Innovation Minas Gerais, da Taça das Favelas e do Empreender é Ressignificar, iniciativas que conectam talentos das favelas ao ecossistema de inovação e investimento.
Sobre o futuro, Marciele revela:
“Quero ocupar uma cadeira na ONU Mulheres com a pauta do empreendedorismo feminino.”
E deixa um conselho para o Mês da Consciência Negra:
“Faça das suas adversidades diárias uma oportunidade de se reinventar.”

No Mês da Consciência Negra, sua história lembra algo essencial: quando mulheres têm oportunidade, apoio e espaço para florescer, elas não transformam apenas a própria vida — fortalecem comunidades inteiras.
Marciele voltou para a escola buscando futuro. E, ao encontrar seu caminho, abriu portas para que muitos outros encontrassem o deles também.
Para apoiar nossos projetos e fortalecer essa rede de transformação, entre em contato pelas redes: @expofavelaminasoficial @marianasmulheres @cufamgoficial.





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