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Brasil,01/10/2026

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    Glória Barcelos

    A vergonha lidera o nível mais baixo da consciência

    Quando o sentimento passa a definir quem somos.

    Imagem IA
    A vergonha lidera o nível mais baixo da consciência

    O que sentimos pode influenciar profundamente a maneira como enxergamos a vida, tomamos decisões e nos posicionamos diante dos desafios. Muitas vezes, porém, não percebemos que determinadas emoções, quando não são reconhecidas e compreendidas, podem ultrapassar o momento em que surgiram e começar a interferir na forma como nos percebemos e, consequentemente, na maneira como conduzimos a própria vida.

    O médico e psiquiatra norte-americano David R. Hawkins apresentou uma escala de níveis de consciência que associa diferentes estados emocionais a determinados níveis de percepção. Em sua proposta, a vergonha aparece no nível 20, seguida pela culpa, no nível 30; apatia, 50; tristeza, 75; medo, 100; desejo, 125; raiva, 150; e orgulho, 175. Essa classificação faz parte da abordagem desenvolvida por Hawkins e é utilizada em contextos de espiritualidade e desenvolvimento pessoal como uma maneira de refletir sobre diferentes estados emocionais. Mais do que olhar para esses números como uma medida objetiva da consciência humana, podemos utilizá-los como um convite à observação de como aquilo que sentimos influencia nossas escolhas, nossos comportamentos e a percepção que construímos sobre nós mesmos.

    E talvez seja justamente nessa percepção que esteja uma das questões mais importantes. Muitas vezes, não é apenas a emoção que nos limita, mas a identidade que, pouco a pouco, construímos em torno dela. Existe uma diferença significativa entre dizer “estou com medo” e afirmar “eu sou medroso”, assim como existe uma distância entre reconhecer “estou sentindo vergonha” e concluir “eu sou uma pessoa tímida e não consigo fazer isso”. Quando uma emoção deixa de ser compreendida como uma experiência que estamos vivendo e passa a ser utilizada para definir quem acreditamos ser, ela pode ganhar um espaço muito maior dentro de nós.

    A expressão “eu sou” possui uma força especial porque está relacionada à identidade. Quando dizemos repetidamente que somos tímidos, medrosos, incapazes ou inseguros, podemos começar a interpretar nossas experiências a partir dessas definições, encontrando justificativas para permanecer dentro dos limites que elas estabelecem. Assim, aquilo que começou como um sentimento diante de determinada situação pode acabar se transformando em uma crença sobre nós mesmos, e a crença, quando repetida muitas vezes, pode influenciar nossas escolhas.

    Quantas vezes, por exemplo, alguém deixou de aproveitar uma oportunidade simplesmente porque sentiu vergonha? Imagine uma pessoa que recebe um convite para apresentar seu trabalho diante de outras pessoas. No primeiro momento, ela sente desconforto, insegurança e medo de ser julgada. Se interpretar esses sentimentos como uma confirmação de que não é capaz, provavelmente encontrará razões para recusar o convite. Mas, se conseguir reconhecer que está sentindo vergonha e, ainda assim, decidir experimentar, poderá descobrir que existe uma possibilidade além daquela que a emoção apresentava naquele instante.

    Isso não significa negar a emoção ou fingir que ela não existe. Significa permitir que ela esteja presente sem entregar a ela a decisão final. Afinal, podemos sentir medo e continuar caminhando; podemos sentir vergonha e ainda assim nos expressar; podemos estar inseguros e, mesmo assim, dar o próximo passo. A emoção continua fazendo parte da experiência, mas deixa de ocupar o lugar de comando.

    Talvez seja por isso que, em determinadas situações, quando percebemos que não temos controle sobre todas as circunstâncias, respirar profundamente e pensar “Seja o que Deus quiser” possa produzir uma mudança interior. Não porque o medo desapareça de repente, mas porque, naquele momento, fazemos uma escolha: reconhecemos que existem coisas que não podemos controlar e decidimos seguir adiante com aquilo que está ao nosso alcance. A fé, nesse contexto, pode representar não a ausência de medo, mas a disposição de continuar mesmo sem conhecer todos os desdobramentos do caminho.

    Vergonha, medo, tristeza, raiva e orgulho fazem parte da experiência humana. O problema não está necessariamente em sentir essas emoções, mas na maneira como nos relacionamos com elas e no espaço que permitimos que ocupem em nossa identidade. Quando tentamos eliminar aquilo que sentimos a qualquer custo, podemos acabar lutando contra uma parte da própria experiência humana; quando, por outro lado, aprendemos a observar o que está acontecendo dentro de nós, criamos a possibilidade de escolher uma resposta diferente.

    Essa mudança pode começar pela própria linguagem que utilizamos. Em vez de dizer “eu sou tímido”, podemos reconhecer: “neste momento, estou sentindo timidez”. Em vez de afirmar “eu sou medroso”, podemos perceber: “estou sentindo medo, mas posso escolher avançar”. A diferença parece pequena, mas muda a relação que estabelecemos com aquilo que sentimos, porque deixa de existir uma sentença definitiva sobre quem somos e passa a existir uma experiência que pode ser observada, compreendida e transformada.

    Também precisamos ter cuidado para que as dificuldades que enfrentamos não se transformem em uma identidade de vítima. Quando acreditamos que as circunstâncias determinam completamente nossas escolhas, podemos deixar de perceber o espaço de ação que ainda existe dentro de cada situação. Nem sempre podemos escolher o que acontece conosco, mas podemos buscar desenvolver consciência sobre a maneira como respondemos ao que acontece, e é justamente nesse espaço entre o acontecimento e a resposta que muitas possibilidades de transformação começam a surgir.

    Você pode ter sentido vergonha, mas não precisa ser definido por ela. Pode ter sentido medo, tristeza ou raiva e, ainda assim, continuar sendo muito maior do que qualquer uma dessas experiências. As emoções fazem parte da nossa história, mas não precisam escrever sozinhas os próximos capítulos dela.

    Talvez a pergunta mais importante não seja “como faço para deixar de sentir medo?”, mas “o que posso fazer mesmo sentindo medo?”. A primeira pergunta pode nos colocar em uma espera pela ausência da emoção; a segunda nos devolve a possibilidade de agir enquanto ela ainda está presente.

    É nesse espaço que a coragem começa a aparecer. Não necessariamente como uma força extraordinária ou como a ausência de medo, mas como uma escolha cotidiana de continuar caminhando, mesmo quando alguma parte de nós ainda gostaria de permanecer onde está.

    E talvez seja justamente essa passagem, entre reconhecer o medo e escolher avançar, que nos conduza ao próximo tema: a coragem.




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