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Brasil,13/08/2026

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    Aline Costa

    15 - O que permanece quando tudo muda?

    Talvez a vida não precise fazer sentido…

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    15 - O que permanece quando tudo muda?

    Durante muito tempo, eu pensei que amadurecer significava finalmente descobrir como fazer a vida acontecer da maneira que eu desejava. Eu imaginava que, depois de compreender melhor a mim mesma, aprender a controlar minhas emoções e encontrar alguma estabilidade dentro de tudo aquilo que sempre pareceu tão intenso, seria possível construir uma existência onde as coisas finalmente permanecessem no lugar. Hoje percebo que talvez a vida nunca tenha feito esse acordo comigo. Ela continua mudando, levando algumas coisas, trazendo outras, abrindo caminhos que eu não havia planejado e fechando portas que eu ainda não estava pronta para abandonar. Quanto mais observo, mais compreendo que existe uma diferença enorme entre tentar controlar a vida e aprender a caminhar com aquilo que ela coloca diante de nós.

    A natureza nunca parece ter vergonha dos próprios ciclos. Uma árvore não tenta impedir o inverno de chegar, uma folha não permanece presa ao galho quando chega o momento de cair e o rio não interrompe seu curso porque encontrou uma pedra no caminho. Tudo se transforma, tudo atravessa alguma coisa e tudo, de alguma maneira, participa de um movimento maior do que aquilo que consegue compreender. Durante muitos anos, eu resisti a essa ideia porque queria preservar pessoas, momentos, versões de mim mesma e histórias que já estavam mudando enquanto eu ainda tentava segurá-las. Hoje começo a entender que algumas perdas não precisam ser interpretadas como fracassos. Existem coisas que simplesmente cumprem seu ciclo, pessoas que caminham conosco durante determinado trecho, versões nossas que precisam morrer para que outras possam nascer e experiências que deixam de pertencer à nossa vida mesmo depois de terem sido profundamente importantes.

    Essa compreensão também mudou a maneira como olho para aquilo que posso ou não posso fazer. Existem acontecimentos que não estão nas minhas mãos, escolhas que pertencem a outras pessoas, circunstâncias que não posso modificar e acontecimentos que simplesmente fazem parte da condição de estar viva. Continuar gastando minha energia tentando controlar tudo isso me afastava justamente daquilo que realmente dependia de mim: a maneira como eu responderia ao que acontecia, aquilo que escolheria alimentar dentro de mim, os limites que estabeleceria, as pessoas que permitiria permanecer por perto e o significado que daria às experiências que atravessassem minha história. A vida nunca me ofereceu controle sobre o mundo, mas sempre me devolveu alguma responsabilidade sobre a maneira como caminho por ele.

    Talvez tenha sido essa percepção que começou a transformar minha relação com a própria dor. Durante muito tempo, eu queria compreender por que certas coisas precisavam acontecer comigo, por que determinadas pessoas eram capazes de ferir tanto, por que algumas experiências chegavam justamente quando eu já estava cansada e por que a existência parecia exigir de mim uma resistência que eu nem sempre sentia possuir. Hoje algumas dessas perguntas continuam sem resposta, e curiosamente isso já não me incomoda da mesma maneira. Existem perguntas que não precisam de uma explicação para deixarem de governar nossa vida. Algumas precisam apenas encontrar um lugar dentro de nós onde possam permanecer sem nos consumir.

    Também comecei a perceber que sobreviver não é a única maneira de atravessar uma experiência difícil. Existe uma diferença entre carregar uma dor e permitir que ela determine quem somos. Uma tempestade pode atravessar uma floresta inteira sem transformar cada árvore em tempestade. O fogo pode destruir uma paisagem e, ainda assim, a terra continuar produzindo vida depois dele. Talvez exista em nós essa mesma capacidade silenciosa de atravessar aquilo que parecia impossível e, depois de algum tempo, descobrir que ainda existe alguma coisa crescendo onde acreditávamos que nada mais pudesse nascer.

    Foi assim que comecei a olhar para a minha própria história com menos necessidade de julgamento. Passei anos tentando decidir quais partes de mim eram fortes, quais eram frágeis, quais deveriam permanecer e quais precisavam desaparecer. Hoje já não sinto a mesma urgência de separar minha existência em partes aceitáveis e partes que eu gostaria de esconder. Sou feita das coisas que amei, das coisas que perdi, das escolhas que fiz, das que gostaria de ter feito diferente, das pessoas que chegaram, das que partiram, das marcas que permaneceram e também daquilo que ainda não compreendi. Existe uma espécie de paz em perceber que não precisamos estar completamente prontos para continuar caminhando.

    Talvez seja por isso que hoje eu tenha mais respeito pelos ciclos. Aprendi que há momentos para insistir e momentos para soltar, momentos para falar e momentos para permanecer em silêncio, momentos para construir e momentos para simplesmente observar. Aprendi também que nem toda batalha merece minha energia e que nem toda pessoa precisa ser convencida, salva ou carregada. Cada ser humano possui seu próprio caminho, suas próprias escolhas e suas próprias consequências. Posso oferecer presença, afeto, conhecimento, oportunidade e companhia, mas existe um trecho da caminhada que sempre pertencerá ao outro.

    Isso não diminuiu minha capacidade de me importar. Ao contrário, tornou meu cuidado mais consciente. Quando compreendemos que não podemos viver a vida por outra pessoa, começamos a amar de uma maneira diferente. Deixamos de tentar conduzir cada passo e passamos a oferecer aquilo que realmente podemos oferecer: presença quando somos necessários, espaço quando o outro precisa caminhar sozinho e a coragem de permanecer próximos sem transformar amor em posse.

    Talvez essa seja uma das formas mais profundas de liberdade que encontrei até aqui: compreender que pertencer ao mundo não significa controlar o que acontece nele. Significa participar dele. Significa reconhecer que somos parte de uma rede muito maior do que nossa própria história, que recebemos constantemente da vida e também deixamos alguma coisa nela. Uma palavra pode permanecer em alguém durante anos. Um gesto pode alterar uma trajetória. Uma pessoa pode atravessar nossa existência por pouco tempo e ainda assim deixar sementes que continuam crescendo muito depois de sua partida.

    E talvez seja justamente aí que minha relação com a existência tenha começado a mudar. Passei muito tempo procurando um sentido grandioso para estar aqui, como se eu precisasse descobrir uma razão definitiva para justificar minha permanência. Hoje penso de outra maneira. Talvez o sentido não esteja escondido em algum lugar esperando ser encontrado. Talvez ele seja construído na forma como tocamos aquilo que nos foi confiado enquanto estamos aqui. Nas pessoas que encontramos, nos animais que cuidamos, nas histórias que ajudamos a transformar, nas pequenas coisas que fazemos quando ninguém está olhando e nas marcas que deixamos sem sequer saber que deixamos.

    A vida continua sendo difícil. O mundo continua carregando crueldades que eu não consigo compreender e existem dias em que a realidade ainda pesa muito mais do que eu gostaria. Mas alguma coisa mudou dentro de mim. Já não sinto que preciso vencer a vida para merecer permanecer nela. Aprendi a caminhar com ela. A observar seus ciclos. A aceitar que algumas coisas não estão nas minhas mãos e a cuidar com mais atenção daquilo que está. Aprendi que posso perder sem deixar de amar, mudar sem deixar de ser quem sou, sentir profundamente sem precisar transformar cada sentimento em uma sentença sobre minha existência.

    Talvez crescer seja isso: deixar de exigir que a vida seja diferente para conseguir enxergar beleza nela. Talvez seja aprender a olhar para aquilo que existe, reconhecer sua impermanência e ainda assim escolher participar. Como quem entende que nenhuma estação permanece para sempre, mas cada uma possui algo que só pode ser vivido enquanto ela estiver presente.

    E, depois de tudo o que vivi, existe uma pergunta que continua me acompanhando, mas agora ela chega de outro lugar: se não podemos escolher tudo aquilo que a vida coloca em nossas mãos, o que estamos fazendo com aquilo que escolhemos receber?




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