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Brasil,03/08/2026

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    Rituais de beleza: o prazer pode começar antes de sair

    Entre o cuidado quase invisível e a grande produção, preparar-se pode reunir escolha, expressão e conforto — mas também comparação e cobrança


    Rituais de beleza: o prazer pode começar antes de sair

    Às vezes, a ocasião começa antes da porta se abrir. As mãos imóveis enquanto o esmalte seca, o cabelo ainda molhado tomando forma sob o secador, o creme que esquenta na palma da mão antes de tocar a pele, a roupa em cima da cama esperando por essa noite, o perfume borrifado no pulso, a música que muda o ritmo da casa. O ato de se arrumar pode ser mais do que uma sequência de tarefas — pode ser o intervalo em que uma mulher decide, sozinha, como quer chegar.


    Esse ritual muda de forma conforme a mulher e o dia. Para algumas, é rápido: uma roupa que já sabe que funciona, o cabelo preso com duas mãos e três minutos, um perfume no caminho da porta. Para outras, começa dias antes — salão marcado, manicure, depilação, peças experimentadas e devolvidas, o espelho consultado mais de uma vez. Muda com a personalidade, a ocasião, o tempo disponível e a relação de cada uma com o próprio corpo.


    Também não existe uma única resposta para "para quem ela se arruma". Pode ser para si, para combinar com a ocasião, para ser notada, para dividir com alguém o prazer de estar bem na própria pele. As motivações se misturam sem aviso — a mesma mulher pode se maquiar para uma reunião de trabalho pensando em autoridade, e para um jantar pensando em desejo, no mesmo espelho.


    O que a ciência permite dizer


    Uma pesquisa publicada em 2022 entrevistou 1.483 brasileiras entre 18 e 75 anos e encontrou uma relação que contraria o senso comum: mulheres com autoestima geral mais alta gastavam menos dinheiro com maquiagem — mas, quando a autoestima vinha da vida social, o gasto aumentava. Já o tempo dedicado à maquiagem se relacionou principalmente à importância atribuída à aparência. A amostra não representa toda a população brasileira, mas o achado contraria uma explicação simplista: não existe uma mulher-tipo que se maquia por insegurança, porque a autoestima se relaciona de formas distintas com esse comportamento.


    E diante do espelho, a mudança pode acontecer em segundos. Um experimento com 50 brasileiras jovens comparou o rosto sem nada, uma etapa intermediária com cosméticos sem cor e o rosto pronto. Mesmo nessa etapa intermediária, as participantes já se viam mais femininas, mais saudáveis e com autoestima mais alta do que se viam sem maquiagem alguma. A confiança só aumentou nas etapas com maquiagem real, onde algumas percepções subiram ainda mais. O efeito, porém, é feito de agora: nada nos estudos garante que ele atravesse a semana, muito menos que melhore a saúde mental.


    Entre o encontro e o tribunal


    O mesmo espelho que devolve o rosto pronto também devolve comparação. Uma revisão brasileira reuniu 32 estudos sobre redes sociais e imagem corporal e encontrou, na maioria deles, o mesmo movimento repetido: rolar a tela, medir o próprio rosto pelo rosto de outra, fechar o aplicativo pior do que quando entrou. Os artigos reunidos relatam insatisfação corporal, comparação de aparência, piora do humor e queda da autoestima como efeitos predominantes — variando conforme o público e o uso das plataformas.


    Por isso, chamar esse ritual de "terapia" seria impreciso — confundiria uma experiência prazerosa com um tratamento de saúde mental. Psicoterapia trata o sofrimento com método e acompanhamento. Autocuidado é outra coisa: é o gesto que cada pessoa faz por si, sem prometer cura nem substituir cuidado profissional.


    Isso não tira o valor do que acontece naqueles minutos. Pode ser uma pausa. Pode ser um prazer. Para algumas mulheres, pode ser o único momento do dia em que ninguém pede nada. Mas não é obrigação, não é tratamento, e não garante, sozinho, que a autoestima que sai daquele quarto seja a mesma que volta para ele amanhã.


    No fim, talvez ficar pronta não seja alcançar uma versão perfeita de si. Pode ser reconhecer, diante do espelho, que a roupa, o corpo e a intenção finalmente conversam. A porta se abre, a ocasião começa — embora uma parte dela já tenha sido vivida antes.





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