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Belo Horizonte,08/02/2026

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    Sergio Sandeers

    A arte cubista de Joanna Scharlé

    O cubismo como técnica artística

    Sergio Sandeers
    A arte cubista de Joanna Scharlé No ateliê de arte de Joanna Scharlé

    Tal como quem entra em Delfos subindo a montanha adentrei no ateliê de artes de Joanna Scharlé, a porta se abre para belo jardim de inverno e a luz atravessa a porta de vidro. Os pinceis meticulosamente arrumados cada um por altura no seu devido recipiente, a paleta de cores ainda com um pouco de tinta derramada. O cavalete armado e um esboço do que virá a ser uma nova obra de arte... Em Delfos você vê nas paredes do templo frases oraculares, toda a arte é traduzida e resumida em palavras da oralidade clássica. Já no estúdio de Scharlé tudo é cor, luz, sombra e pigmento. A arte é traduzida diretamente do sentimento que toca o coração e da percepção extremamente sensível de Joanna. “Esse quadro, vi uma pessoa empurrando um carrinho de metal pela rua, me passou tanta melancolia aquela cena, que tive que pintar, surgiu na ponta dos meus dedos, e no final o quadro na verdade transmite certa esperança, não é?” assim Joanna me mostra com simplicidade uma verdadeira joia, uma obra de arte verdadeira, onde o sentimento de dualidade entre o melancólico ser do cotidiano brasileiro foi traduzido em cores e formas cubistas e ressignificado com um luxo Luxemburguês, resultando em algo esperançoso, o quadro não me ressoou como algo triste e sim como algo altruísta.

    Joanna é a pura síntese do Brasil brasileiro, representa a união de dois mundos, o velho mundo tradicional da Europa reside na sua ascendência em Luxemburgo, de onde veio sua família. Já o novo mundo das Américas, tropical e quente como o Brasil é representado pelo cotidiano de Scharlé que é apaixonada pelas cores e tradições do nordeste. “adoro o nordeste, colorido, quente, autentico, formado de pessoas verdadeiramente felizes, com tradições únicas, o nordeste habita muito do meu inconsciente e isso eu reflito na minha arte”, delimita em palavras concisas Scharlé. Sua personalidade como pessoa é complexa, como é complexa a mente de todos os artistas brilhantes. Joanna com imensa naturalidade vai descendo dos decks do acervo, quadros e mais quadros, artes grandes, telas imensas, telas pequenas e até telas minúsculas. Vai mostrando uma após a outra, sem imaginar que quem está as vendo, está extremamente emocionado, chocado de verdade. Já no terceiro ou quarto quadro que eu vi, as lagrimas desceram, e não pude conter a emoção de ver imensa autenticidade, é uma obra extremamente autentica. A obra reflete a união de dois mundos, o velho mundo europeu, acadêmico, industrial, meio mecânico, meio traço do engenheiro unido com o novo mundo, quente, efervescente, tropical, carregado de movimento, cor e até atmosfera...

    “Esse foi meu primeiro quadro, eu ainda era menina quando pintei. Chamo de turma, pois ilustra um grupo de pessoas, veja se você gostou?” Joanna segura firme sua primeira obra, oscilando a cabeça como quem diz, assim comecei! E eu perplexo novamente, penso: - Se essa é a primeira obra, a primeira, e tem tanta qualidade, é porque realmente o dom da arte reside nestas delicadas mãos de Joanna. O quadro em si é de outra técnica, mais acadêmico, ilustra três pessoas muito bem contornadas, porém estão envoltas em um gradio, como em segundo plano e o gradio possui inusitado movimento cubista, vai em todas as direções inesperadas, une na mesma linha curva da grade, mentes e corações das figuras como um emaranhado de sentimentos e pensamentos unidos pelo traço, volume e perspectiva.

    Das gavetas do ateliê surgem blocos grandes e pequenos de papel, blocos grossos, repletos de desenhos á nanquim. “Esta é minha fase atual, estou decidida a vender alguns nanquins para que o publico conheça uma pouco do meu trabalho. São nanquins de tamanho A2 e A3, tento ilustrar o que vejo no cotidiano, são muitos nanquins” Joanna pega o bloco senta no jardim e vai os mostrando, um após o outro. E eu vendo isso, logo firmo o pensamento, “gostei mais deste, não, gostei mais deste, não, gostei mais deste” impossível escolher o melhor, todos tem uma significância imensa, possuem uma carga emocional interessantíssima. Na mente de Scharlé habita um traço industrial, meio mecânico, tal como peças de design Italiano, tal como peças de carros da Fiat, rebuscada arte mecânica. E esse traço se une ao sentimento que ela consegue filtrar das pessoas e vivencias que vê no cotidiano, unindo assim um traçado mecânico com um traçado geométrico, perpendicular, profundo, pura arte cubista. 

    O cubismo é muito pouco conhecido no Brasil, seu ápice foi a obra de Pablo Picasso, riquíssima em detalhes e cores, passando pela obra de Juan Gris, um espanhol porta-voz desta arte única, que deu origem as variantes “Analítico” e Sintético”. Logo em seguida vem a fase de Fernand Leger que traz o cubismo para as esculturas. Depois vem Francis Picabia que introduz a fotografia de volumes na arte cubista, Georges Braque introduz a questão maior do cubismo que é a tridimensionalidade em uma tela bidimensional. Tarsila do Amaral vem logo em seguida introduzindo o tropical ao cubismo e também buscando retratar a “inquietude e efervescência cultural” na sua obra. E então temos Diego Rivera, mexicano que também trabalha o tropical em sua arte muralista. Ou seja temos 7 grandes artistas, todos em uma linda linha sucessória até resultar agora na arte de Joanna. E eu digo sem sombras de duvidas, a arte de Joanna é o legado, a continuação da arte de Picasso no carregar de tintas das formas disformes, é o sintético e analítico das formas de Gris, é a escultura moldada de bronze de Leger, é a estética diptica de Picabia, é o tridimensional de Braque, é a feminilidade sensorial de Tarsila e é as cores quentes de Rivera. Não estão lendo errado não, elenco Joanna como a representante maior deste estilo único de arte, o Cubismo. 

    Joanna recebeu o dom, desenvolveu o dom, tem acervo, tem obras, tem fases da sua obra. Tudo muito organizado e catalogado. Está pronta para exposições, para ganhar holofotes em salões de arte, para ocupar andares inteiros em museus e galerias. É uma artista pronta. Pronta para encantar o publico, pronta para levar cultura e estilo cubista ao coração e mente do brasileiro. Precisamos tirar esta cortina que ainda está encobrindo a obra de Scharlé. Rasgar ou abrir essa cortina, removendo o véu do ateliê, trazendo ao grande publico essa arte que não pode ficar guardada em decks de acervo... O Brasil, Minas Gerais, Belo Horizonte, o Mundo merecem ver uma exposição completa de Joanna Scharlé. Será impactante!


       


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