Sergio Sandeers
Crítica de teatro - Os Sete gatinhos
Hipocrisia e decadência abordadas por Nelson Rodrigues
Imagem de Sete Gatinhos Os sete gatinhos, uma peça de teatro com nome inocente. Quem não conhece Nelson Rodrigues pode até acreditar se tratar de um teatro infantil, lúdico, leve... Porém mergulha em um sadismo bestial, forte, contundente, indigesto. O texto e o enredo são de uma perversidade brasileira, ilustram o viés do pobre que é morador de subúrbios, e oscila entre humilhado e humilhante. Algoz e vítima, inquisidor e inquirido...
A montagem da peça foi impecável, caracterização de cena com colegiais que remetem a 1958 exatamente a época em que Nelson escreveu seu texto. Cenas de luxo, garbo, luz muito bem utilizada, cortina de fumaça ressaltando o aspecto fetichista do subúrbio... as músicas e a sonoplastia envolveram a platéia com um aspecto de "retrato do tempo", o som nostálgico de uma espécie de tango brasileiro...
Porém o texto! O texto é uma espiral de sordidez, do início ao fim. Começa pelo título que sempre me intriga, porque sete gatinhos? Na sinopse temos Silene a filha mais nova da família Noronha, ela estuda em colégio interno e ali mata a paulada uma gata preta, prenhe, que após morta dá a luz sete gatinhos... porém o sete me ressoou diferente. No enredo vemos a presença do sete em outros aspectos, como no aspecto religioso popular brasileiro, onde a religiosidade é fio condutor das ações do dia a dia. É no sete que residem os sete chacras, os sete planos espirituais, os sete exus da umbanda, são sete os caminhos do bem e do mal, existe até uma pulseira de sete nós. Na bíblia temos o ciclo do sete como sendo o ciclo divino dos sete dias da criação da terra, são sete velas no menora, representando as sete luzes que somadas são a luz divina.
No sete residem muitas questões presentes neste denso texto, nele a decadência de uma família, a família Noronha, onde quatro irmãs mais velhas são levadas ao caminho da perdição para sustentar o valor do enxoval da quinta irmã, a caçula, que é a única tida como pura, casta e virginal. O líder desta família patriarcal é o Sr. Noronha, contínuo na Câmara dos deputados, representa o pequeno poder, já sua esposa dona Darcy, a gorda, representa a mulher submissa e que vê em Silene a filha mais nova a salvação moral da família.
Não é atoa que Silene a personagem principal recebe este nome. Na mitogia Silene é a companheira de Baco, é ela que leva Baco a embriaguez, através da sua sedução juvenil. Silene também é um gênero de plantas pegajosas, que solta um certa cola natural ao ser manuseada, esse gênero de plantas tem botões delicados, vistosos, quase inocentes, sua planta mais conhecida é a dama de jardim, muito usada no paisagismo. Ou seja Silene é juvenil, doce e ao mesmo tempo desencadeia a tragédia.
Na trama as irmãs: Aurora, Hilda, Débora e Arlete são retratos sexuais da mulher brasileira jovem, vão se permitindo viver a imoralidade cotidiana, e exatamente através destas permissões caem no mundo da prostituição. Alegam que necessitam do dinheiro para um fim altruísta, o enxoval da casta e virginal Silene, porém as irmãs demonstram a todo momento a necessidade e gosto pelas experiências mundanas, mostrando que há nas famílias uma falsa moralidade que se não tratada pode desencadear uma selvageria familiar que gera contornos trágicos.
Noronha é personagem extremamente interessante, possui um sentimento de posse. Ele como patriarca da família possui posse sobre a esposa que chama o tempo todo de gorda, possui posse sobre as 5 filhas, sobre o ambiente familiar da casa, porém essa posse se evanesce ao perder o prestígio mínimo que tinha. O pobre brasileiro possui um prestígio mínimo, que pode sumir da noite para o dia. E o prestígio de Noronha, um simples contínuo na Câmara dos deputados se destroe ao ele se tornar cafetão das próprias filhas prostituidas. Noronha é humilhado no trabalho e ao mesmo tempo é quem humilha dentro de casa, o tempo todo busca o confronto, contundente contra seu núcleo familiar. Implodindo seu pequeno poder. Temos até um termo bastante brasileiro para isso "pobre diabo", onde o sujeito é um pobre em todos os sentidos, financeiro, patriarcal, social, moral, um grande exemplo da incapacidade brasileira de liderar e ser exemplo de algo maior.
E é exatamente ai que eu queria chegar, nos subtons , adoro os subtons da história. Nelson Rodrigues traz na sua tragédia, uma tragédia de costumes brasileiros. Uma sociedade erigida pelo patriarcado, onde falta um patriarca. Onde o masculino cobra do feminino toda uma postura que ele mesmo não pratica. Exige, moralidade, castidade, virgindade, pureza em todos os aspectos, porém na prática o patriarca é tão desprovido de ética que gera uma carência da sua autoridade.
Na época em que Nelson escreveu esse texto dos sete gatinhos outros textos foram escritos contemporâneos: Auto da compadecida, Eles não usam Black Tie e O pagador de promessas. O que essas 3 obras magistrais tem em comum? Todas abordam a religiosidade popular brasileira como grande remédio cultural. Nestas obras o brasileiro comum ao se ver ausente de estado, de saúde, de educação, de sociedade, de hierarquia apela para o único acesso direto que possui, uma religiosidade que vem para ser solução para absolutamente tudo. De dor de cabeça, a dor de estômago, de bênçãos com Arruda a espantar mal olhado, de revelações de passado e futuro. E isso Nelson emprega em 7 gatinhos como uma lâmina que corta, é até metafísico. Em certa cena uma entidade possui o corpo de uma das fIlhas prostituidas, e faz relações de que o que trava o avanço moral da família é um suposto homem que chora por um olho só, que usa roupas de virgem, que chora no êxtase sexual. Esse suposto homem é tido daí para frente como o alvo a ser buscado, onde residem todos os problemas, eliminando esse homem em oferenda aos deuses, toda a moralidade da família seria restaurada.
Neste ponto me veio a cabeça o mito das Erinias, um rito punitivo grego, onde as deusas da vingança se vingam dos mortais. Essas deusas são: Alecto, a deusa implacável, do castigo. Megera, a deusa do ciúme e rancor, e Tisifone a deusa da fúria e da vingança, essas habitam o submundo, "o andar debaixo" e se vingam dos humanos. Muito diferente de Nemesis deusa da vingança que age só contra os deuses. Há aí uma antítese onde Nelson revela que o submundo era o subúrbio, a terra do popular, do brasileiro comum, onde a necessidade de vingança e de punições era a linguagem comum.
Há até a tragédia de Eurípedes onde mulheres despedaçam fisicamente o rei Penteu em êxtase religioso. Isso está presente em cena final de Sete gatinhos. Isso aflora o perigo que é a necessidade de canalizar os impulsos primitivos do povo brasileiro. Um embate diário entre o racional e o instinto.
Altamente complexa e altamente impactante a montagem de Sete gatinhos... veja com moderação crítica e religiosa. Eu mesmo fiquei muito impactado.




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