Sergio Sandeers
Crítica de teatro - O Belo indiferente
Drama revela cicatrizes invisíveis
Vinicius di Castro em cenaA antítese do amor não é o ódio, é a indiferença. O ódio é passional, parte da paixão, é sentimento complementar ao amor. Já a indiferença parte de outro lugar, parte da apatia, do desprendimento, da falta total de interesse, de cuidado, de atenção, um real descaso.
A indiferença reside na ausência de distinção, vem do latim Indiferentia, onde algo é não diferente, não distinto. Quando elegemos algo como distinto e diferente, estamos lhe dando valor, e valorizar algo ou alguém é a essência do amor, do amar, do apreciar com valores sentimentais. E é exatamente aí que Jean Cocteau se baseou para escrever sua peça: "O Belo indiferente". Escrita em 1940 em plena guerra mundial, onde Paris tinha sido invadida pelos nazis... Cocteau pensou em Edith Piaf para ser a musa da peça.
Uma mulher famosa, linda, artística, cantora, plena, que aos poucos se torna uma sombra do que era, revelando na relação com um "Belo indiferente" uma violência psicológica, revelando cicatrizes invisíveis de uma relação destrutiva que transforma a luz de uma mulher na sombra de uma mulher...
Com direção do médico Jair Raso, interpretada pela intensa Joselma Luchini e pelo promissor Vinicius di Castro. A peça explora a não comunicação verbal, onde Vinicius entra em cena sem dizer uma só palavra e fica por quase uma hora em cena totalmente em silêncio, apático, indiferente, lendo seu jornal, nu. É na nudez de Vinicius que aflora o lado animalesco do homem, explorado exatamente pela mente médica de Jair Raso, que viu como revelar o lado selvagem do homem, sem ter que mostrar em gestos uma violência, explorando o contexto de que o homem é animal social no conceito Aristotélico, onde o homem é um Deus da linguagem e ao mesmo tempo um homem fera, optando por não falar, emerge a ferocidade humana...
Interessantíssimo ver o pensamento de Jair, é tal como presenciar a dissecação de um corpo, uma autópsia interna de um ser, afloram vísceras de pensamentos. No teatro da Assembleia a peça O Belo indiferente explora um cenário surrealista onde o personagem do cenário é o rinoceronte, animal feroz, fera indomada que ilustra exatamente esse paradoxo humano, ser um rinoceronte feroz ou explorar a carência natural das relações demonstrando algum sentimento, sendo gregário?
Quando Jean Cocteau criou o paradoxo da Avant Guard, a vanguarda, explorou o surrealismo em sua obra, trazendo exatamente essa necessidade humana de se manter nas suas bases sociais (tradição) e explorar a experiência (O novo). E na peça O Belo indiferente vemos isso na interpretação comovente de Joselma Luchini. Ela se mantém focada no amor, na dedicação, no afeto, no carinho ao Belo, que está na busca pela não relação, ausente, buscando o novo, rompendo laços, criando assim o conflito surreal.
Aristóteles explica: a natureza do homem animal é a carência das relações humanas, o ser precisa do outro para moldar suas ações, decisões e comportamentos, é uma necessidade natural. Assim somos frutos de duas espécies, o homem gregário - koinonia e o homem solitário - monodika. Alternamos nossa ação diária entre estes dois tipos, ora necessitamos da egregora, do grupo, ora necessitamos da ausência do grupo, a solidão.
O nudismo de Vinicius em cena não é chocante, não é sexualidade, não é beleza, é parte integrante da cena, da peça, do enredo. O homem sem roupa é despido dos seus signos sociais, das suas carapaças, do seu extrato social. Um homem nu remete ao estado natural da sua essência, e Vinicius faz isso com um lirismo único. Acredito que Vinicius é o grande expoente artístico da nossa geração.
Não pude deixar de pensar no quesito psicológico de o elemento central da peça ser um divã vermelho, onde afloram pensamentos, onde aflora a ação. Uma peça que reúne arte, estética, camadas, um drama psicológico. Tem que estar preparado para assistir... você está preparado? Vá ao teatro...





COMENTÁRIOS