CasalVulcão | Aura Studio BH Não houve câmera ligada.
Não houve chamada de vídeo.
Não houve voz.
A conversa com Marlon Monteiro, o homem que muitos conhecem
como 70x7, cantor, compositor e agora escritor, nasceu daquelas trocas que só o WhatsApp permite: um questionário
enviado, um silêncio breve enquanto alguém digita… e então, respostas que
chegam carregadas de memória, fé e cicatrizes.
Foi assim, entre bolhas verdes e brancas na tela, que uma
das histórias mais intensas que já cruzaram esta revista tomou forma.
No alto de uma colina de lembranças, algumas pesadas como
concreto, outras luminosas como promessa, está Marlon Monteiro. Não o
“artista”, não o “nome de palco”, mas o homem que aprendeu, depois de muito
correr de si mesmo, que não havia armadura mais forte do que seu próprio nome. O
nome Marlon tem origem incerta, mas geralmente significa "pequeno
falcão" (do francês antigo) ou "pequeno
guerreiro" (do inglês antigo) .... e como o peso desse nome faz
jus a história.
“Marlon 70x7 não é um nome artístico… é uma âncora”, ele
diz. Uma âncora que o lembra do perdão, não apenas o que pediu a Deus, mas o
que precisou direcionar ao menino que foi injustamente ferido, ao adolescente
que tentou se esconder atrás de máscaras, e ao adulto que tantas vezes se
sabotou. “Até mesmo eu, principalmente eu mesmo, precisei aprender a perdoar.”
A infância que não deveria caber em ninguém
A história de Marlon começa em um cenário que, pelas
estatísticas, não costuma permitir sobreviventes. Três irmãos perdidos, trinta
e sete amigos mortos, abusos, casas caindo, castigos diários.
“A parte bonita é
que eu sobrevivi… onde não tinha como sobreviver.”
E quando tenta definir essa travessia, recorre a uma frase
que ouviu em um podcast, dita por uma pastora que o enxergou além da casca:
“Me perdoa menino, mas quando eu te vi eu assustei… um negão
desse tamanho com uma voz tão suave. Depois de passar por tudo isso, você está
de parabéns.”
O menino assustado virou homem, mas a pergunta que guiava
sua alma permaneceu por muito tempo: “O que estou fazendo aqui?”
A arte entrou na vida de Marlon não como escolha, mas como
resgate, ou como ele mesmo diz, “a última tentativa”.
O tráfico não serviu. A prostituição não serviu. O esporte
não encaixou.
A arte, no entanto, “pareceu gostar dele”.
Aos 17 anos mergulhou em tudo: dança de salão, sapateado,
balé, hip hop, teatro. A arte abria portas, “o cara feio não era mais feio”,
mas aumentava o buraco da solidão. As pessoas queriam o que ele fazia, não quem
ele era, fama, mulheres, festas... “Eu nem era tão preto mais...”, ele diz,
refletindo sobre como a performance às vezes o afastava da própria identidade.
Mas foi dançando a dois que algo começou a mudar. “A dança
foi o canal para que eu começasse a ser curado do toque”, conta. Depois de
abusos, aprender a ser abraçado foi quase tão revolucionário quanto aprender a
existir.
Fotos: Acervo Pessoal
O encontro que virou virada
A virada, porém, não veio com aplausos. Veio com quietude e
com o Cristo que o alcançou antes que ele conseguisse se destruir.
“Passei os três primeiros anos só me limpando e curando de
tudo que criei achando ser o certo… aí virei discípulo de JESUS.”
JESUS, para ele, não é símbolo. É norte, é mesa posta, é
tinta que colore o mundo inteiro.
“Parei de querer morte e passei a querer vida, e comecei a
viver.”
Em uma das respostas, Marlon remete diretamente a um
lançamento musical seu que ganhou vida de forma quase inesperada: havia deixado
uma faixa registrada com uma gravadora sem intenção de lançá-la oficialmente,
mas ela acabou indo ao ar e rapidamente se tornou símbolo da sua trajetória, como ele mesmo afirma: "Deus sabe o que faz, como faz e quando faz" ..No
vídeo disponível no YouTube, onde ele canta sobre sobrevivência, dor e
descoberta de identidade , há versos que ecoam o que ele escreveu durante nossa
conversa: a consciência de que todas as experiências vividas, até as mais
dolorosas, acabaram compondo quem ele é hoje e precisam ser compartilhadas para
inspirar outros a nunca desistirem de reescrever suas próprias histórias.
Ser negro, ser consciente, ser inteiro
Quando questionado sobre os desafios de ser um homem negro
no Brasil, Marlon não responde com fatalismo, mas com lucidez:
“Ser negro(a) no Brasil sem conhecimento é de fato um
problema… Nos querem sem acesso. Mas nós somos poderosos. Eu mesmo sou um rei.”
A maior barreira, diz ele, não está na cor, mas no sistema
que tenta limitar gente preta à ignorância.” A segunda maior barreira são as
pessoas que começam a caminhada e desistem antes do fim e tentam arrastar os
outros junto.”
Ele não é dos que desistem.
Arte, fé e a revelação diária
Sua arte não se define por gênero ou estética. “Única”, ele
resume. Ainda em construção, ainda amadurecendo, mas viva.
Hoje, seu processo criativo é entregue:
“Prefiro que o Espírito Santo componha.”
Depois de anos acreditando ser “o melhor em tudo”,
reconheceu que a perfeição mora no que Deus faz, não no que seu ego tenta
produzir.
E o que ele quer transmitir?
Só uma coisa:
“Que JESUS vive em mim.”

Responsabilidade de quem inspira
Marlon sabe que homens negros ocupando lugares de fé e
liderança ainda são minoria. E isso pesa.
“Posso matar alguém na fé se falar algo errado.”
Por isso estuda dobrado, observa triplicado, ora sempre!
Sua missão é clara: “Gerar muitos frutos.”
Aos jovens negros que sonham com a arte, ele entrega uma
sabedoria sem glamour:
“Copiem. Se não copiar, não vai saber inovar.”
"O burro que escreveu um livro e virou autor" .
Rir para não chorar. É assim que ele conta o dia em que,
criança, foi chamado de “burro” pela professora que não percebeu que ele estava
na sala errada e sequer sabia ler. O apelido grudou no bairro. No corpo. Na
alma.
Mas não venceu.
Seu livro “Linguagens para Além do Amor” nasceu dessa marca
e de uma vontade de não permitir que só líderes ricos tenham voz.
“Já que não posso lutar contra, vou aprender o caminho das
pedras… para ajudar outros a contar seus testemunhos.”
Entre cadernos esquecidos, amigos que não leram, tentativas
frustradas de diagramação e editoras caras, o processo levou cinco anos. E hoje ele declara:
Quem não desistiu foi Deus e a mulher que ele aprendeu a
amar.
E assim, pela Editora Clareira, o livro finalmente nasceu.
O futuro que já começou
Quando fala do que vem aí, Marlon não promete espetáculo.
Promete transformação.
“JESUS ainda pega algo destruído e conserta… pega um pobre e
faz rei.”
Quer ser lembrado de forma simples:
Como o menino que lembrou ao mundo que JESUS já o pintou
inteiro de cor.
E sua missão, se coubesse numa única frase, seria:
“JESUS cura, salva e liberta.”
Ao final da conversa…
Quando pergunto o que o guia diariamente, ele não discursa.
Apenas sorri e solta o que, para ele, sustenta tudo:
“DEUS é FIEL.”
E é essa fidelidade, costurada com dor, graça, queda,
resgate, música e revelação, que transforma a história de Marlon Monteiro em
algo maior que biografia:
É testemunho.
É renascimento.
É conto vivo.

Foto:
Conheça a jornada de Marlon Monteiro em: Youtube Marlon70x7 e Instagram Marlon 70x7








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