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Brasil,23/02/2026

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    Camila Sol

    Dicria – Contagem a Cada Esquina une cinema e HQ para revisitar memórias e tensionar o passado

    Dicria
    Dicria – Contagem a Cada Esquina une cinema e HQ para revisitar memórias e tensionar o passado capa


    Uma nova publicação mineira propõe olhar para Contagem sob diferentes camadas de tempo, memória e imaginação. Dicria – Contagem a Cada Esquina é a mais recente iniciativa da Anticomix, realizada em parceria com a Prefeitura de Contagem e financiada pela PNAB 2025. A revista aposta na força narrativa dos quadrinhos para transformar a cidade em cenário, personagem e ponto de partida para reflexões mais amplas.

    O projeto marca a estreia nos quadrinhos de dois nomes vindos do audiovisual: Renato Novaes, três vezes vencedor do Prêmio Candango no tradicional Festival de Brasília, e Breno Oliveira, diretor dos curtas Babilônia (2025), Sfálma (2025) e Tragédia (em pós-produção). A união entre cineastas e ilustradores experientes cria uma linguagem híbrida, em que o ritmo cinematográfico encontra a potência gráfica das HQs.

    Memória, apagão e pertencimento

    Em “Brejo Alegre”, escrita por Renato Novaes e ilustrada por Arthur Pigs, um blackout mergulha Contagem na escuridão. É nesse cenário que Nato e Carla revisitam lembranças da infância no bairro Industrial. A narrativa se constrói entre fragmentos de memória, afetos interrompidos e a dúvida que ecoa no escuro: será que eles já brincaram juntos quando crianças, no Brejo Alegre?

    O apagão deixa de ser apenas um evento físico e se transforma em metáfora. A ausência de luz amplia as lacunas da memória, questiona identidades e provoca o leitor a refletir sobre pertencimento. A cidade aparece não apenas como pano de fundo, mas como território afetivo, onde passado e presente se entrelaçam.


    Ficção científica e sombras da ditadura

    Já em “A Estrela Mais Brilhante do Céu”, Breno Oliveira e Maria Jupira conduzem o leitor a uma ficção científica ambientada durante a ditadura militar. Um grupo de amigos passa a enfrentar acontecimentos inexplicáveis: desaparecimentos, ruídos cortando o céu, a sensação constante de estar sendo observado.

    Seriam alienígenas promovendo abduções ou o próprio regime atuando nas sombras? A trama tensiona paranoia, amizade e violência de Estado, utilizando o sci-fi como lente crítica para revisitar um período traumático da história brasileira. Ao misturar elementos fantásticos com referências políticas, a história amplia o debate sobre memória coletiva e silenciamentos.

    Cinema e quadrinhos em diálogo

    Coordenado por Victor Lopes, produtor e editor da publicação, o projeto nasce justamente da articulação entre realizadores do cinema e artistas das HQs. A proposta é aproximar linguagens, explorar enquadramentos, ritmo e atmosfera, trazendo às páginas a influência direta da narrativa cinematográfica aliada à expressividade gráfica.

    Dicria – Contagem a Cada Esquina surge como um registro cultural que ultrapassa o entretenimento. Ao ambientar suas histórias em Contagem, a revista reafirma a cidade como espaço de criação, reflexão e potência artística, colocando-a no centro de narrativas que dialogam com identidade, política e imaginação.




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