O que está por trás do DHT, hormônio masculino que pode ser faca de dois gumes
O corpo masculino funciona como um ciclo solar, em movimento constante durante as 24 horas do dia. Por trás da força, da virilidade e da testosterona, símbolo máximo da energia masculina, existe uma peça-chave que nem sempre recebe a devida atenção: o DHT, ou di-hidrotestosterona.
Esse hormônio atua como uma extensão da testosterona, regulando libido, desempenho físico e características sexuais. Mas, na cabeça, ele pode agir de forma menos desejada — sendo o principal responsável pela calvície androgenética.
Para entender como o DHT influencia corpo, mente e aparência, conversamos com o endocrinologista José Marcelo Natividade, do Hospital das Clínicas da FMUSP, e com a dermatologista Cibele Fernandes Leite.
O hormônio da virilidade
“O DHT regula características sexuais masculinas e influencia massa muscular e libido”, explica o endocrinologista José Marcelo Natividade. "Níveis altos podem causar calvície e problemas prostáticos; baixos, queda de desempenho físico e sexual. O equilíbrio é essencial para o metabolismo saudável", afirma. Segundo o especialista, esse equilíbrio é o que diferencia um metabolismo saudável de um corpo em desequilíbrio hormonal.
Quando o excesso vira risco
Natividade destaca que o DHT em excesso também pode trazer impactos metabólicos. “Há evidências de que níveis elevados de DHT podem contribuir para resistência à insulina e risco de síndrome metabólica”, esclarece. “O excesso pode alterar o perfil lipídico e promover inflamação, afetando o controle glicêmico”, acrescenta.
Força muscular e riscos do uso indevido
Embora o DHT estimule o crescimento muscular, o médico alerta que ele não deve ser manipulado sem acompanhamento. “O DHT estimula o crescimento muscular, mas sua elevação artificial pode causar efeitos adversos como infertilidade, alterações hepáticas e cardiovasculares. O uso deve ser médico e controlado, evitando riscos à saúde”, afirma.
Da virilidade à calvície
A calvície androgenética é o reflexo mais visível da ação do DHT no corpo. “Embora seja majoritariamente genética, a calvície androgenética pode estar associada a maior risco de resistência à insulina e doenças metabólicas”, explica Natividade. “Pode servir como alerta clínico em casos precoces ou agressivos”, completa.
O impacto na libido e no desempenho sexual
O hormônio também tem papel direto na função sexual. “O DHT é essencial para libido e função erétil. Níveis muito baixos ou excessivos podem prejudicar o desempenho sexual”, afirma o endocrinologista. “O ideal é manter o hormônio dentro dos parâmetros fisiológicos, com acompanhamento médico”, acrescenta.
O que deve ser monitorado
Para avaliar o impacto do DHT, Natividade orienta um conjunto de exames laboratoriais. “Recomenda-se dosagem de DHT, testosterona total e livre, SHBG, perfil lipídico, glicemia e insulina”, explica. “Exames complementares como hemograma e função hepática ajudam a avaliar o impacto metabólico geral”, destaca o médico.
Como o DHT age nos folículos capilares
A dermatologista Cibele Fernandes Leite explica que o DHT tem um papel específico no couro cabeludo. “O DHT, ou di-hidrotestosterona, é um derivado da testosterona formado pela ação da enzima 5-alfa-redutase”, esclarece.
“Ele se liga aos receptores nos folículos capilares, principalmente da região frontal e do vértex do couro cabeludo. Em pessoas geneticamente predispostas, essa ligação desencadeia um processo de miniaturização progressiva: os fios ficam cada vez mais finos, curtos e menos pigmentados, até que o folículo entra em dormência e para de produzir cabelo”, continua.
Segundo ela, é por isso que nem todos sofrem com a calvície. “É uma combinação de genética, sensibilidade do folículo e presença do DHT”, explica.
Libido e força: o DHT não é o protagonista
“O DHT tem participação em algumas características sexuais masculinas, como crescimento de pelos corporais e desenvolvimento da próstata”, comenta Cibele. “No entanto, quando falamos de libido e força muscular, a testosterona é a protagonista. O DHT exerce um papel secundário e não é considerado determinante para ganho muscular ou desejo sexual.” Em outras palavras, altos níveis de DHT não significam necessariamente mais força ou apetite sexual.
Por que o DHT afeta mais os homens?
“Os homens possuem níveis naturalmente mais altos de testosterona, logo produzem mais DHT”, explica Cibele. “Além disso, a sensibilidade genética dos folículos masculinos costuma ser maior. Nas mulheres, o DHT também pode causar queda de cabelo, mas geralmente em padrões diferentes, mais difusos e menos marcantes do que a calvície masculina”, aponta a dermatologista.
É possível bloquear o DHT sem afetar o equilíbrio hormonal?
Sim, mas com cautela. “Existem medicamentos, como a finasterida e a dutasterida, que inibem a enzima 5-alfa-redutase, reduzindo a conversão de testosterona em DHT”, esclarece a dermatologista.
“Quando usados corretamente e sob supervisão médica, eles conseguem preservar outras funções hormonais. Ainda assim, pelos riscos de efeitos colaterais, a indicação deve ser individualizada e sempre com acompanhamento de um médico especialista”, aponta.
Sinais de alerta no couro cabeludo
Afinamento e perda de cabelo podem ser a primeira a tocar visualmente. “O principal sinal é o afinamento gradual dos fios nas áreas predispostas: entradas, coroa e linha frontal no caso dos homens; rarefação difusa na região superior no caso das mulheres”, explica Cibele. “Outro indício é a queda mais intensa e, com o tempo, áreas de couro cabeludo visíveis”, completa a dermatologista.
Tratamentos modernos contra os efeitos do DHT
A médica destaca que os avanços recentes permitem abordagens personalizadas, como bloqueadores hormonais e até mesmo tratamento tópico do problema (o que reduz os colaterais sistêmicos). "Entre os quais estão os bloqueadores hormonais como finasterida oral, dutasterida e, mais recentemente, microdosagens tópicas”, explica.
Ela complementa que há terapias complementares: “Terapias injetáveis, como mesoterapia capilar e microinfusão de medicamentos no couro cabeludo, além de laser de baixa potência e transplante capilar, indicados em casos avançados, onde há pouca resposta ao tratamento clínico”.
Para Cibele, o futuro está na personalização: “O grande diferencial atual é a personalização. Avaliamos genética, exames hormonais e hábitos de vida para indicar a melhor combinação de terapias”, afirma a dermatologista.
Hábitos que ajudam a manter o DHT sob controle
Além de tratamentos médicos, alguns hábitos diários ajudam a manter o equilíbrio hormonal e reduzir a ação excessiva do DHT no corpo:
Durma bem. O sono regula a produção hormonal e evita picos de cortisol, que interferem na testosterona e, consequentemente, no DHT.
Pratique atividade física regular. Exercícios aeróbicos e de força ajudam a equilibrar o metabolismo e reduzem inflamações que afetam o sistema endócrino.
Cuide da alimentação. Prefira alimentos ricos em zinco (como carnes magras, sementes de abóbora e castanhas), magnésio (espinafre, aveia, banana), ômega-3 (peixes como salmão, sardinha e atum) e antioxidantes (frutas vermelhas, cacau e azeite de oliva). Esses nutrientes ajudam na regulação hormonal e na proteção das células.
Evite automedicação hormonal. O uso de testosterona ou anabolizantes sem acompanhamento pode elevar perigosamente os níveis de DHT, afetando fígado, fertilidade e couro cabeludo.




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