Adri Fernandes
Prêmio Melhores do Ano: categoria Golpe
Não ter culpa não te exime de responsabilidade
Todo mundo sabe: o moço da foto é o Maníaco do Parque, o sujeito que dizia para mulheres comuns que elas poderiam ser modelo e sugeria que posassem para ele. Em seguida ele as matava. Vaidade, desinformação, autoestima excessiva. E não há um ser humano que não pergunte: como elas acreditavam?
Elas ainda acreditam e, aqui me incluo, ajudam a perpetuação de golpes na carreira.
Recentemente, um organizador de eventos me procurou por eu ter sido indicada para receber um prêmio (um pequeno “troféu”) como modelo e manequim de destaque na minha idade e perfil. Maravilha! Que coisa boa! Mas tinha que pagar uma taxa simbólica (simbólica de verdade, 30 lulinhas). Golpe, óbvio! E havia muitos outros indícios disso no Instagram do moço, em especial a indicação de premiação de pessoas que não possuem registro profissional na categoria para a qual estavam sendo indicadas. Mas não falei em golpe no sentido de pagar e não receber, mencionei golpe no sentido de qualquer um que pagar e receber o prêmio, ou seja, não seria verdadeiramente por mérito.
Na minha carreira de modelo já caí em vários golpes, mas nenhum deles foi sem minha cumplicidade. Sabe aquele “vou pagar para ver”? Sou dessas. Mas de todos os golpes que levei, tive proveito, no mínimo, no mínimo, renderam imagens que movimentaram meu Instagram.
Bom, enquanto eu decidia se deveria denunciar o moço e impedir que o evento ocorresse, vi amigas aderindo à premiação, na boa-fé, acreditando tratar-se de uma excelente forma de divulgação de sua loja e optei por não denunciar. Logo depois fui convidada a desfilar para duas marcas que estariam na premiação. E aí decidi aderir, já que estaria lá, problema nenhum receber um trofeuzinho para chamar de meu e gerar likes. Paguei o valor solicitado e estaria então em três momentos do dia, dois desfiles e a premiação.
Nas vésperas do evento rolou quiprocó. Descobriram que o moço falou mal das parceiras lojistas, rolou vazamento de áudios e blá blá blá. De fato, uma situação chatérrima e só aí questionaram a hombridade da pessoa. No dia anterior à premiação divulgaram mensagens de que uma assessora do moço informava sua internação devido a um princípio de AVC. Outro golpe, provavelmente. A pessoa fez coisa errada e vai comparecer onde estão prometendo confronta-lo? Só se além de bandido fosse doido, né?!
Chega o grande dia e quem receberia seus troféus ficou a ver navios. Nem chorei o leite derramado, corri o risco, paguei o pato. Mas as marcas bancaram os desfiles, para produzirem material de divulgação. Ótimo! Valeu! Desfilei, fotografei e “zéfiní”.
Passados poucos dias e os não premiados se organizaram em um grupo de whatsapp para “correr atrás do prejuízo”. É que além dos 30 lulinhas, as pessoas tinham pago diversos outros serviços ofertados pelo golpista e alguns tiveram prejuízo que chegava a 300 contos. Realmente, é uma grana a considerar, especialmente no coletivo.
Quando perguntei qual seria o plano de ação, não tinham. Esbravejavam ir na grande mídia denunciar o moço. Eu não faria isso! Já sabia que o risco de golpe era de 99% e embarquei por minha conta e risco no evento de uma pessoa da qual eu não tinha nenhuma referência. Me sinto uma cúmplice e não meramente alguém que foi lesada. No Direito existe a figura da culpa da vítima, que são as situações criadas pela vítima que facilitaram a ação do criminoso. Não se trata de culpar a vítima, mas de responsabiliza-la por seus atos, já que tudo tem consequências. Culpa é uma coisa, responsabilidade concorrente é outra.
Propus ao grupo ajudar no plano de ação e sugeri contratarmos uma advogada para direcionamento, a que já estava no grupo representando uma lojista que também teve prejuízos. Não aceitaram. Queriam ir na Record, SBT e etc. Foi quando precisei dar um banho de realidade.
Mentira minha. Precisar, precisar, não precisava, mas onde que a língua cabe dentro da boca? Não cabe!
Informei que para denunciar na grande mídia precisaríamos estar ao lado da lei e ali ninguém estava. Umas três modelos apenas, entre quase 100 que seriam premiadas como destaque nesta profissão, possuíam registro profissional no Ministério do Trabalho e Emprego, requisito exigido por lei para exercer a profissão de modelo e manequim. Muitas, umas trinta, tinham cumprido a qualificação técnica exigida previamente ao registro, mas não o providenciaram. E o resto, aproximadamente 50 pessoas que seriam premiadas como modelo de destaque, não tinham a qualificação profissional e, logicamente, nem o registro legal, apesar de terem vasta experiência em passarela comercial.
Como denunciar um criminoso quando o próprio denunciante está descumprindo a lei? Porque ter experiência não anula pena, cadeia e multa. Um médico que atua sem ter concluído Medicina, é preso e não tem redução de pena por ter experiência praticando ilegalmente a atividade.
Reflita comigo. Não existe lei que obrigue um cabelereiro ou uma confeiteira a ter registro profissional. Mas você contrataria para seu casamento uma confeiteira amadora? Você contrataria um cabeleireiro amador para fazer seu penteado? Ou você buscaria aquele consolidado no mercado, com diplomas e mais diplomas na parede do salão (ops, é “estúdio” que se diz)? Pois é! Tudo que é dito como amador remete a coisa mal feita, contratação arriscada e por isso todos nós procuramos profissionais gabaritados, seja ou não profissão regulamentada por lei.
Mas elas querem ir no Balanço Geral. Então, imagine a cena: bora fazer o B.O. e chamar a TV. Na delegacia:
- Seu delegado, eu levei um prejuízo de Fulano de Tal, que me cobrou um valor para que eu recebesse uma premiação de destaque como modelo e manequim e ele não realizou o evento.
- Que absurdo! Isso é estelionato! Vamos registrar esta ocorrência. passe seu documento, por favor
- Taquí meu RG.
- Ótimo! Agora seu registro profissional.
- Não tenho.
- Não tem? Você não falou que é modelo?
- Modelo amadora.
Ele ri e o que era pra ser o registro de uma vítima de estelionato se transforma em um registro de exercício ilegal de profissional legalmente regulamentada. A pessoa já sai da delegacia intimada a comparecer em audiência criminal como ré. Tudo isso filmado e mostrado pela rede de TV que a própria pessoa chamou.
Mas ninguém compreendeu a gravidade do que eu dissera, com exceção da advogada que estava no grupo. Os demais reclamaram que eu estava diminuindo aqueles que não tinham o tal do DRT. Sim, a discussão cresceu em torno disso, de que quem tem registro profissional, nos termos da lei, não é melhor que quem não tem. E aí não deu para avaliar se essa discussão se deu a partir da má-fé de quem quer continuar exercendo a função fora da lei sem arcar com os ônus disso ou da incapacidade cognitiva e intelectual de compreender o quanto isso, entre tantas outras limitações, te leva de vítima a réu.
Detalhe: entre quase cem modelos, eu era a única que, além do registro profissional, era sindicalizada. A única que poderia pedir ao sindicato da categoria ajuda jurídica para culpabilizar o golpista. Mas lembra que eu contei que já sabia do risco? Como vou no sindicato passar recibo de imbecil? Por causa de 30 lulinhas? Jamé!
Entre os modelos do malfadado evento haviam crianças e adolescentes e o registro profissional só é exigido a partir dos 16 anos. Porém, isso não permite que eles atuem sem concluírem um processo, também previsto em lei, que perpassa pelo sindicato e pelo Juizado “de Menores”, para obterem autorização para estar em uma passarela. E nenhum deles tinha cumprido tal requisito.
Mas, por pelo menos uma centena de pessoas, eu me considero melhor que o resto por me negar a chamar a mídia, já que ninguém ali era profissional de verdade. Me baniram do grupo, junto com a advogada que lá estava e que havia proposto ajuda-los sem custo algum. Nem deu tempo de contar pra galera que eram todos estelionatários, já que estavam auferindo vantagem ilícita, ou seja, sendo remunerados (ganhariam as fotos do desfile e alguns até a peça que desfilavam) como contrapartida ao exercício ilegal da profissão de modelo e manequim. Isso é estelionato!
Foi assim que dezenas de pessoas compareceram para receber troféu de destaque como modelo e manequim e saíram de lá com o prêmio de golpistas do ano (o exercício de profissão sem cumprir requisito legal também é golpe). Claro que podem cobrar do moço o prejuízo financeiro, mas ele pode denuncia-los pela falta de registro profissional.
Mas eu não quero encerrar esse texto, já longuíssimo, com esse clima pesado. Vamos então falar dos benefícios de fazer um curso de Modelo e Manequim reconhecido pelo sindicato da categoria, o SATED – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão.
Crianças, jovens e adultos, sem limite de idade, altura e tipo físico, quando investem nesse tipo de curso ganham desenvoltura, segurança para driblar a timidez, postura corporal, delicadeza no caso das mulheres e masculinidade no caso dos homens. Aprendem a se vestir, a se maquiar e se conduzir. Não importa se vai seguir carreira, o processo de mudança já vale o aprendizado que não é caro e vale para a vida.
“Ahhh mas meu sonho é ser modelo! Eu quero seguir na carreira.”
Então, a primeira coisa que você precisa saber é que você vai se jogar nos golpes desse mercado (pesando o clima de novo rs) e tá tudo bem, desde que você saiba que é golpe e que esse golpe (do qual ora você será a vítima e ora co-autora) vai te ajudar a atingir um objetivo, valendo a pena o risco.
E que golpes são esses? São tantos e de tão diversificados âmbitos, que só consigo exemplificar. Então segue uma lista que não se esgota em si mesma.
Você vai desfilar em troca de foto que sequer é editada, algumas vezes vai pagar pela foto, vai gastar com book desnecessário, vai torrar dinheiro com ensaio pessoal, pensando que está fazendo ensaio profissional. Vai fazer desfile que vai enfiar trinta modelos em camarim sem água, janela, ventilador nem ar-condicionado. Vai pagar para desfilar e vão te passar peças inadequadas, mal feitas, cheias de defeitos. Você vai morrer em milhares de lulinhas em concursos de miss e mister, oficiais ou não, que não te levarão a lugar nenhum. Vai desfilar tropeçando em filho de convidado correndo pela passarela. Vai gastar com cursos e workshops de passarela, quando o que rende um money é publicidade e nem os cursos nem os workshops vão te preparar para esses trabalhos remunerados.
“Sem problemas, meu sonho é desfilar, mesmo sem receber.”
Então, você não quer seguir carreira, você só quer aparecer justamente na área que mais aplica golpe, a passarela. E tá tudo bem, desde que esteja registrada e sindicalizada, para poder denunciar quem ousar lhe fazer de trouxa. Siga seu sonho, você vai amar a transformação pela qual você vai passar!
Sobre o moço da premiação que não ocorreu, posso falar dele sem medo de processo, pois apenas relato o que ocorreu comigo. Ele se apresenta como Jhonny, da Nobre Real Divulgação Oficial e depois do tal AVC bloqueou todas nós. Mas já está oferecendo os serviços para outras “incautas”. Foi denunciado no Procon do Mato Grosso, há alguns anos, mas o processo foi arquivado por não haver indícios de fraude. Sim, para ser vítima tem que estar ao lado da lei e para ter ressarcimento do prejuízo e punição tem que ter provas.
Eu amo ser modelo comercial, amo desfilar com ou sem cachê ou contrapartida, amo fazer publicidade e figuração, e o dindin que pinga nessa área, amo ser inspiração para pessoas que tinham vergonha de si mesmas, amo investir nos workshops. E amo muita gente que desfila comigo sem ter qualificação nem registro profissional, mas teria vergonha se estivesse no lugar delas!




COMENTÁRIOS