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Belo Horizonte,07/02/2026

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    Adri Fernandes

    O incentivo à cultura, a água encanada e a má-fé de uns e outros

    Imagem do Instagram @grupoconfesso
    O incentivo à cultura, a água encanada e a má-fé de uns e outros Cultura também salva vidas
    Volta e meia vem à baila alguma polêmica envolvendo críticas à legislação de incentivo à cultura. São diversas normas, em âmbito municipal, estadual e federal, que garantem o financiamento de produções culturais em diversas áreas, com a captação de recursos diretamente do Poder Público ou via patrocinadores que deixam de pagar determinados impostos para investir nas produções.

    Recentemente, um influenciador digital rebateu fala do ator Wagner Moura, que defendia a Lei Rouanet. Segundo o (des)influencer, o Governo deixou de arrecadar um bilhão de reais que foram investidos em cultura, via Rouanet, enquanto centenas de milhares de brasileiros não possuem acesso a saneamento básico, muitos deles, inclusive, morrendo por doenças causadas por falta de higiene básica. De fato, é assustador!

    Mais assustador ainda é a pessoa divulgar fake news. Não, não é mentira que a mencionada lei de incentivo cultural arrecadou um bilhão de reais. Também não é mentira que a falta de saneamento básico ainda mata milhares de brasileiros. A questão aqui é falsa relação entre investimento em cultura em prejuízo de investimento em saneamento básico.

    Se a verba mencionada não fosse destinada à cultura, seria utilizada para levar água encanada e esgoto aos rincões brasileiros, salvando vidas? Não sei! Você sabe? Duvido! 

    E por que eu duvido que você saiba? Porque nem eu nem a maioria dos que me lêem conhece de orçamento público, de competências dos entes federativos e do quanto a cultura salva vidas. Nenhum de nós pode garantir que aplicando um bilhão de reais em saneamento, haverá salvamento de vidas. Desconhece também há todo um arcabouço de hábitos, costumes e outras tantas questões que envolvem higiene e saúde pública e que dinheiro não basta para solucionar a questão.

    Talvez agora você tenha me respondido, “ahhhh Dri, mas ameniza”. Ameniza o quê? Um bilhão pode amenizar/reduzir questões de saúde pública, levando saneamento à população mais carente? Será mesmo? 

    Segundo a diretora-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Veronica Sanchez da Cruz Rios, de 2019 até 2024 o investimento em saneamento básico pulou de R$ 14 bilhões anuais para aproximadamente R$ 50 bilhões. De acordo com Verônica, esses valores ainda são insuficientes, sendo necessários entre R$ 700 bilhões e R$ 900 bilhões para universalização da água e esgoto encanados, coleta de resíduos sólidos e demais ações de saneamento (Fonte: Agência Senado).
    Cinquenta bilhões investidos, sendo necessários setecentos e nós aqui discutindo sobre um bilhão.
    Usei esse exemplo para demonstrar o quanto nenhum de nós tem informações suficientes para fazer qualquer juízo de valor sobre investimentos públicos. Mas uma coisa eu sei e posso dar garantia: a cultura salva vidas. O acesso à cultura salva a vida de muita gente ensinando higiene, prevenção de acidentes e muitas outras coisas que fazem a diferença positiva na vida das pessoas. 

    Diego Troianni, músico, bailarino, professor, ator e diretor de teatro, criador do Grupo Caixote, esteve em cartaz no início de novembro em três escolas públicas da Grande BH, com o espetáculo infantil Histórias da Carochinha. O texto de Rubens Menezes, que além de ator e dramaturgo, também é psicólogo formado na UniBH, foi desenvolvido a partir da necessidade da abordagem sobre a leitura para crianças, que hoje em dia quase já não conhecem mais os grandes autores e clássicos brasileiros. 

    Na história, a vilã mais conhecida do Brasil, a Cuca, rouba todas as pílulas falantes e com um feitiço, faz com que todas as crianças deixem de acreditar nos contos de fadas. Sem a imaginação das crianças, Emília, Visconde e todos os personagens mágicos do Sitio do Picapau Amaralo irão desaparecer. A montagem do espetáculo só foi possível via lei de incentivo, especificamente à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), que investe em projetos culturais em todo Brasil. E fala de... LEITURA! De acesso à leitura, pelas crianças, e não é pela leitura que descortinamos o mundo aprendemos quase tudo na vida?!

    Diego e Rubens, assim como os divertidíssimos Veteranos 193, também fazem parte de projetos que, por meio do teatro, levam informações referente prevenção de acidentes no local de trabalho. Então, sim, a cultura também salva vidas, também amplia visão de mundo, também conduz o indivíduo a boas e necessárias práticas cotidianas.

    Diego e o grupo Caixote

    Veteranos 193

    Fazer crer que cultura é mera diversão e que, como tal, é dinheiro “jogado fora”, beira à mà-fé. Afinal, é notório que, mesmo a mera diversão, o lazer, ter prazer, são questões de saúde mental e, consequentemente de saúde pública. Para além disso, também é notório que a ludicidade (do lúdico=divertimento) é um dos mais eficazes meios de aprendizagem. Quantas ações de cultura (peças, livros, palestras) financiadas pelas leis de incentivo ensinam crianças a escovarem os dentes, a evitarem abusos, quantas nos fazem refletir sobre violência doméstica, gravidez na adolescência, uso de drogas, quantas nos ensinam sobre a história da nossa cidade, dos nossos antepassados? E você ainda quer acreditar que investir em cultura é dispensável? Você ainda acha possível comparar aprendizado cultural com falta de saneamento básico? Continua querendo tirar um bilhão da cultura porque cinquenta bilhões não são suficientes?

    Sendo a resposta SIM ou NÃO, eu só posso te dizer uma coisa, que, aliás, já falei por aqui: vá ao teatro, leve seu filho ao teatro, ao cinema, a palestras, a círculos de leitura. É mantendo-se ocupado, preferencialmente aprendendo algo, que a gente para de dar palco para (des)influencer que sobrevive de fake news, estas, sim, extremamente nocivas ao indivíduo e à coletividade.

    Vamos falar agora sobre a insistência daqueles de posicionamento político de Direita em desqualificar a política de Esquerda, entre outros, por meio de um pretenso mau uso de investimentos em cultura, como estratégia de desinformação? Melhor não rsrsrsrs. Nem precisa. Se você ainda cai em fake news, sinto dizer, mas, para você, é fim de linha.



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