Dani Lobato
Desejo não se aposenta
Em cena Magdalena Rodrigues, Juçara Costa e Matilde BiadiDDD – Deleite, Depois Delete!
Humor, maturidade e o direito de continuar desejando
Sob a direção de Jair Raso, DDD – Deleite, Depois Delete! se apresenta como uma comédia ágil e espirituosa sobre três irmãs idosas que decidem se aventurar amorosamente na internet. A plateia ri do início ao fim. A identificação é imediata. As situações são reconhecíveis e o ritmo mantém a leveza que o gênero exige.
Mas reduzir o espetáculo a uma comédia bem-sucedida seria simplificá-lo.
Por trás das gargalhadas, a peça articula uma crítica social delicada e eficiente: a invisibilidade do desejo feminino na maturidade. Em uma cultura que associa erotismo à juventude e frequentemente silencia a sexualidade da mulher idosa, colocar três personagens femininas maduras no centro da narrativa — desejando, errando, experimentando — é um gesto simbólico potente.
A sagacidade do texto está justamente em não transformar essas mulheres em caricaturas. Elas são irreverentes, contraditórias, por vezes ingênuas, por vezes estrategistas. O humor não ridiculariza; humaniza. E ao humanizar, desmonta estigmas.
O próprio título sintetiza o espírito contemporâneo: Deleite, Depois Delete. Prazer e descarte convivendo na mesma frase. A internet surge como metáfora do nosso tempo — conexões rápidas, identidades editadas, vínculos que podem ser apagados com um clique.
Quando essa lógica encontra mulheres que atravessaram décadas de vida, lutos e amores duradouros, o choque gera comicidade — mas também reflexão. A peça explora com inteligência esse encontro entre códigos afetivos mais sólidos e a fluidez emocional do ambiente digital.
Há ainda um pano de fundo silencioso que sustenta a narrativa: a solidão na maturidade. Não uma solidão melodramática, mas aquela que se instala quando filhos crescem, parceiros partem ou a sociedade passa a tratar determinadas mulheres como se estivessem “fora do jogo”. Ao ingressarem nos aplicativos e chats, as três irmãs reivindicam algo essencial: o direito de continuar pertencendo ao campo do desejo.
E esse gesto é, inevitavelmente, político.
Jair Raso conduz a encenação com ritmo preciso e sensibilidade, equilibrando humor e subtexto. A direção evita exageros fáceis e aposta na dinâmica entre as personagens, permitindo que o riso conviva com uma camada mais sutil de crítica social.
No fim, DDD – Deleite, Depois Delete! reafirma algo simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: a vida afetiva não tem prazo de validade. O desejo não se aposenta. E amar — ou tentar amar — continua sendo um ato de vitalidade, independentemente da idade.
Entre gargalhadas e reflexões discretas, a peça cumpre o que o melhor teatro contemporâneo propõe: diverte enquanto desloca.
E atenção: dia 14/03, às 19:30h, acontecerá o evento Envelhecer: Tempo de Viver, no Atelier Teatro Juçara Costa, com palestra de abertura de Nikolas Chaves, o personal dos avós. Logo depois, haverá a leitura dramática do texto DDD-Deleite, Depois Delete, e, finalizando a noite haverá um coquetel de confraternização e fotos com as atrizes, ratificando o espaço como ponto de encontro com a arte, a cultura e a alegria. Tire seu ingresso aqui no Sympla
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Ficha técnica DD-deleite depois delete
Texto de Jair Raso
Direção: Jair Raso
Atrizes: Juçara Costa, Magdalena Rodrigues e Matilde Biadi
Produção : Ângelo Campos
Luz: Marcio Carvalho




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