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Brasil,23/02/2026

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    Dani Lobato

    Desejo não se aposenta

    Mauro Mendonça
    Desejo não se aposenta Em cena Magdalena Rodrigues, Juçara Costa e Matilde Biadi

    DDD – Deleite, Depois Delete!

    Humor, maturidade e o direito de continuar desejando

    Sob a direção de Jair Raso, DDD – Deleite, Depois Delete! se apresenta como uma comédia ágil e espirituosa sobre três irmãs idosas que decidem se aventurar amorosamente na internet. A plateia ri do início ao fim. A identificação é imediata. As situações são reconhecíveis e o ritmo mantém a leveza que o gênero exige.

    Mas reduzir o espetáculo a uma comédia bem-sucedida seria simplificá-lo.

    Por trás das gargalhadas, a peça articula uma crítica social delicada e eficiente: a invisibilidade do desejo feminino na maturidade. Em uma cultura que associa erotismo à juventude e frequentemente silencia a sexualidade da mulher idosa, colocar três personagens femininas maduras no centro da narrativa — desejando, errando, experimentando — é um gesto simbólico potente.

    A sagacidade do texto está justamente em não transformar essas mulheres em caricaturas. Elas são irreverentes, contraditórias, por vezes ingênuas, por vezes estrategistas. O humor não ridiculariza; humaniza. E ao humanizar, desmonta estigmas.

    O próprio título sintetiza o espírito contemporâneo: Deleite, Depois Delete. Prazer e descarte convivendo na mesma frase. A internet surge como metáfora do nosso tempo — conexões rápidas, identidades editadas, vínculos que podem ser apagados com um clique.

    Quando essa lógica encontra mulheres que atravessaram décadas de vida, lutos e amores duradouros, o choque gera comicidade — mas também reflexão. A peça explora com inteligência esse encontro entre códigos afetivos mais sólidos e a fluidez emocional do ambiente digital.

    Há ainda um pano de fundo silencioso que sustenta a narrativa: a solidão na maturidade. Não uma solidão melodramática, mas aquela que se instala quando filhos crescem, parceiros partem ou a sociedade passa a tratar determinadas mulheres como se estivessem “fora do jogo”. Ao ingressarem nos aplicativos e chats, as três irmãs reivindicam algo essencial: o direito de continuar pertencendo ao campo do desejo.

    E esse gesto é, inevitavelmente, político.

    Jair Raso conduz a encenação com ritmo preciso e sensibilidade, equilibrando humor e subtexto. A direção evita exageros fáceis e aposta na dinâmica entre as personagens, permitindo que o riso conviva com uma camada mais sutil de crítica social.

    No fim, DDD – Deleite, Depois Delete! reafirma algo simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: a vida afetiva não tem prazo de validade. O desejo não se aposenta. E amar — ou tentar amar — continua sendo um ato de vitalidade, independentemente da idade.

    Entre gargalhadas e reflexões discretas, a peça cumpre o que o melhor teatro contemporâneo propõe: diverte enquanto desloca. 

    E atenção: dia 14/03, às 19:30h, acontecerá o evento Envelhecer: Tempo de Viver, no Atelier Teatro Juçara Costa, com palestra de abertura de  Nikolas Chaves, o personal dos avós. Logo depois, haverá a leitura  dramática do texto DDD-Deleite, Depois Delete, e, finalizando a noite haverá um coquetel de confraternização e fotos com as atrizes, ratificando o espaço como ponto de encontro com a arte, a cultura e a alegria. Tire seu ingresso aqui no Sympla

    ******************

    Ficha técnica DD-deleite depois delete

    Texto de Jair Raso

    Direção: Jair Raso

    Atrizes: Juçara Costa, Magdalena Rodrigues e Matilde Biadi

    Produção : Ângelo Campos

    Luz: Marcio Carvalho



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