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Belo Horizonte,07/02/2026

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    Respirar Casamento

    Quando celebrar é o que atravessa o tempo

    Arquivo pessoal
    Quando celebrar é o que atravessa o tempo


    As histórias de Osvaldo e Mari, e de Paulo e Rita, atravessam tempos diferentes, formatos distintos e escolhas que não seguem o mesmo roteiro. Uma celebração marcada pela tradição, outra quase improvisada. Uma planejada como rito coletivo, outra nascida da necessidade e transformada em encontro. Ainda assim, ambas revelam algo em comum: a importância de marcar, de reconhecer, de celebrar.

    Celebrar não é seguir um modelo. Não é repetir fórmulas nem atender a expectativas externas. Celebrar é dar sentido. É dizer, para si e para o outro, que aquela união importa. Que aquele passo merece ser vivido com presença, afeto e verdade.


    Um casamento atravessado pelo tempo: 61 anos de união, escolhas e permanência

    Osvaldo Pereira, hoje com 83 anos, e Mari Pereira, 81, carregam uma história que atravessa mais de seis décadas de convivência. Casados há 61 anos, eles se conheceram ainda muito jovens, em um tempo em que o namoro era vigiado, as escolhas eram mais rígidas e o casamento representava um compromisso quase definitivo com o outro e com a vida que se construía a dois.

    O primeiro encontro aconteceu de forma simples e simbólica: no casamento de uma prima de Mari. Osvaldo tinha 19 anos; Mari, 18. O encantamento foi imediato, mas o namoro precisou vencer obstáculos comuns à época: pais rigorosos, encontros controlados e uma relação construída com tempo e paciência. O início do namoro se firmou em um baile de formatura, e foram necessários três anos e meio até que o casamento se concretizasse.

    Logo após a união, vieram os filhos — Nilton, Paulo e Cibele — e, com eles, a consolidação de um modelo de família muito característico daquele período. Para Osvaldo e Mari, o essencial em um casamento era claro: o marido assumia o papel de provedor, responsável pelo sustento financeiro da casa, enquanto à esposa cabia o cuidado com o lar e com os filhos. Papéis definidos, socialmente esperados e pouco questionados.

    A cerimônia religiosa na igreja e a festa que reuniu as duas famílias não foram apenas escolhas tradicionais, mas também desejos do casal. O casamento era, antes de tudo, um rito coletivo, um acontecimento que unia famílias, amigos e comunidades. O que mais marcou emocionalmente aquele dia, segundo eles, foi exatamente essa união: a solenidade da cerimônia e a alegria compartilhada na celebração.

    Ao olhar para trás, Osvaldo e Mari afirmam que, se pudessem mudar algo, desejariam apenas ter tido mais recursos financeiros para aproveitar melhor a lua de mel. O sonho não era reinventar o casamento, mas viver com mais conforto um momento que simbolizava o início da vida a dois.


    Quando comparam o casamento de sua época com os relacionamentos atuais, a análise é direta e crítica. Para eles, muitos casais hoje se unem sem se conhecer profundamente. As relações começam de forma mais imediata, com menos construção, e enfrentam dificuldades quando surgem as pressões econômicas e sociais. Na visão do casal, a separação passou a ser considerada com facilidade, às vezes até prevista desde o início da união.

    “Quebrou-se a paixão sem nunca ter chegado ao amor”, resume Osvaldo, em uma frase que carrega experiência e franqueza. Para eles, amar é um processo longo, que exige maturidade e permanência. Não se trata apenas de sentimento, mas de prática diária.

    Ao final, Osvaldo e Mari deixam um aprendizado que atravessa gerações: para que uma relação dure, são necessários compreensão, diálogo, respeito, cumplicidade, perdão, carinho e gentileza — além de muitos outros gestos cotidianos que não aparecem em fotografias, mas sustentam uma vida inteira.

    Mais do que um retrato do passado, a história de Osvaldo e Mari revela que, mesmo com mudanças profundas nos formatos e nas expectativas do casamento, certos valores continuam sendo o alicerce das relações que resistem ao tempo.


    Um casamento que nasceu do cotidiano

    Paulo Gustavo Pereira, 55 anos, e Rita Santos Pereira, 53, estão juntos há 37 anos. Desses, 26 foram oficializados no papel, mas a história do casal começou muito antes de qualquer assinatura ou ritual. Ela nasceu do convívio, da adaptação mútua e de uma relação construída sem pressa, sem roteiro e sem a necessidade de seguir modelos pré-estabelecidos.

    Eles se conheceram ainda muito jovens. Paulo tinha 18 anos; Rita, apenas 15. Moravam praticamente na mesma vizinhança, em São Bernardo do Campo, cidade onde vivem até hoje, mas só passaram a se enxergar de verdade em um baile comemorativo do aniversário da cidade, em 20 de agosto de 1988. O encontro casual deu início a uma paquera que, de forma natural, se transformou em namoro, depois em vida compartilhada, família, amizade e parceria.

    Pouco tempo depois, a convivência se intensificou quase sem que percebessem. Os pais de Rita passavam longos períodos em Minas Gerais cuidando dos avós e, para que ela não ficasse sozinha, surgiu um acordo simples: Paulo passaria a “morar lá” temporariamente. O que começou como algo provisório acabou se tornando o cotidiano do casal. Antes de qualquer decisão formal sobre casamento, eles já dividiam rotina, responsabilidades e afetos.

    Naquele momento, casar não era uma prioridade. Não havia planejamento, expectativa social ou reflexão sobre o que seria essencial em um casamento. Ainda assim, ao olhar para trás, Paulo e Rita reconhecem que valores como respeito, companheirismo, amor, sinceridade e a vontade de crescer juntos sempre estiveram presentes. Tudo foi acontecendo no ritmo da vida, sem estratégias, sem idealizações.

    O casamento oficial só aconteceu anos depois, motivado por uma necessidade prática. Após 12 anos de namoro e convivência, o casal decidiu comprar a própria casa. Pouco tempo depois, no final de 1999, Paulo perdeu o emprego e, com ele, o convênio médico. A solução foi objetiva: casar no civil para que ele pudesse ser incluído como dependente no plano de saúde de Rita.

    A data foi marcada para 14 de janeiro de 2000, uma sexta-feira, às 11h da manhã. A ideia era simples e funcional. Não havia planos para cerimônia, festa ou qualquer protocolo tradicional. O vestido de Rita era o mesmo usado na virada do ano, comprado em uma loja comum, sem simbolismos adicionais.

    A única escolha guiada pela tradição veio por sugestão da família: receber uma bênção do padre, amigo próximo, na paróquia do bairro. Para o casal, seria apenas isso — um gesto simples, sem formalidades.

    O que aconteceu naquele dia, no entanto, transformou completamente a experiência.

    Ao chegarem à igreja, começaram a aparecer amigos e familiares, avisados discretamente. As sobrinhas pequenas surgiram com buquês de flores. O pai de Rita, músico, pegou o violão e começou a tocar. A igreja ainda estava decorada com flores de um casamento anterior. Sem ensaio, sem convites, sem produção, aquela manhã comum se tornou uma celebração espontânea, afetiva e verdadeira.


    Foi esse encontro inesperado que mais marcou emocionalmente o casal. Ver a igreja cheia, em plena sexta-feira, no meio da manhã, com pessoas que simplesmente quiseram estar ali, deu ao momento um significado profundo. Oficializar a união de forma simples, à vontade e cercada de afeto foi, para eles, profundamente emocionante.

    Se pudessem se casar hoje, Paulo e Rita afirmam que não fariam nada diferente. Mesmo sem pretensão alguma, tudo deu certo. Foi leve, verdadeiro e inesquecível — exatamente como sempre viveram a relação.


    Casal com seus fillhos Marina, de 19 anos e o Arthur de 13 anos.

    Ao refletirem sobre os casamentos atuais, evitam comparações rígidas. Reconhecem que cada casal é um universo próprio, formado por dois mundos distintos tentando coexistir no mesmo espaço. Ainda assim, percebem que hoje as relações parecem mais frágeis, com menos paciência para atravessar conflitos e aceitar diferenças.

    Para Paulo e Rita, casamento é, acima de tudo, a capacidade de adaptação. É aprender a ceder, dialogar e escolher o outro todos os dias. Um vínculo construído no cotidiano, sustentado por convivência, presença e decisão.


    Celebrar é pausar a vida para honrar o encontro. É transformar o cotidiano em memória. É permitir que o amor seja visto, sentido e compartilhado, do jeito que fizer mais sentido para quem está vivendo.

    Porque o que atravessa gerações não é o formato do casamento, mas a decisão de estar junto — e de marcar esse momento com significado.




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