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Belo Horizonte,07/02/2026

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    Aline Costa

    Fernanda Neu e a mixtape que apresenta uma nova geração do cinema brasileiro ao mundo.

    Aos 23 anos, a diretora carioca leva um sonho independente ao circuito internacional e mostra que diversão, sensibilidade e liderança também podem salvar o mundo.

    Foto Divulgação
    Fernanda Neu e a mixtape que apresenta uma nova geração do cinema brasileiro ao mundo.

    Em um momento de expansão consistente do cinema brasileiro no exterior, um novo nome começa a ganhar destaque com frescor, coragem e uma assinatura própria. Aos 23 anos, a diretora carioca Fernanda Neu já está no radar internacional com seu primeiro curta-metragem, “A Mixtape para o Fim do Mundo”, exibido em um festival qualificatório para o Oscar e premiado nos Estados Unidos.

    Mais do que conquistas iniciais no circuito de festivais, a trajetória de Fernanda traduz valores centrais da nova geração criativa: autonomia, colaboração, resiliência e propósito. Para viabilizar o projeto, ela organizou uma campanha de financiamento coletivo, liderou uma equipe com mais de 40 profissionais e enfrentou um obstáculo inesperado, uma fratura na perna às vésperas das filmagens, que adiou a produção por seis meses. Nada disso, no entanto, foi suficiente para interromper o filme que precisava ser feito.

    Uma diretora que constrói o próprio caminho

    Fernanda sempre soube que o cinema seria seu território. Ainda jovem, investiu em formação técnica e criativa até ingressar na faculdade em Los Angeles, onde aprofundou o domínio da linguagem audiovisual e desenvolveu uma compreensão prática do funcionamento da indústria. Ali, aprendeu sobre disciplina, hierarquia de produção e, sobretudo, a importância do trabalho coletivo, além de construir uma rede de contatos decisiva para tornar seus projetos possíveis.

    “Quero criar algo que as pessoas assistam e se divirtam. Não precisa ser uma comédia, mas quero que elas saiam se sentindo bem”, afirma a diretora.

    Em contraste com um ambiente acadêmico marcado por narrativas densas e dramáticas, Fernanda identificou uma lacuna criativa. 

    “Sempre observei que jovens diretores tendem a fazer coisas muito parecidas: terror ou histórias muito sérias e tristes. Eu ficava pensando: por que não criar algo mais original?”, reflete. A inquietação virou motor criativo.

    Um filme para salvar e celebrar o mundo

    “A Mixtape para o Fim do Mundo” nasce de uma motivação pessoal. Inspirada por seu primo, um menino autista e grande entusiasta de seus filmes, Fernanda decidiu contar uma história divertida, acessível e emocionalmente honesta. No curta, duas crianças acreditam que um asteroide destruirá a Terra e partem em uma missão improvável: chegar até a NASA para impedir o fim do mundo.

    A aventura dialoga com clássicos dos anos 1980 como Os Goonies, E.T. e Os Caça-Fantasmas, combinando leveza, imaginação e um olhar afetuoso sobre a infância. A escolha da NASA como cenário também teve razões práticas: o campus da faculdade da diretora ficava a poucos minutos de uma unidade da agência espacial. Fernanda participou de um tour guiado com um engenheiro da NASA para validar cientificamente a narrativa e dar verossimilhança à história.

    “É exatamente o que o meu primo faria”, conta.
    “Ele chegaria para mim e diria: ‘Fernanda, o mundo vai acabar, vamos para a NASA?’ E se eu dissesse sim, a gente iria.”

    Liderança, resiliência e um set de 40 pessoas

    Com o roteiro finalizado, Fernanda reuniu uma equipe diversa e numerosa. Mais de 40 pessoas colaboraram no set em uma produção viabilizada por financiamento coletivo e muita organização. Pouco antes do início das filmagens, veio o imprevisto: a diretora quebrou a perna e precisou interromper o processo por seis meses.

    O atraso não diminuiu o ímpeto. Pelo contrário, reforçou a determinação de concluir o projeto. Quando finalmente filmou, Fernanda já demonstrava uma maturidade incomum para um primeiro trabalho autoral, conduzindo equipe, elenco e decisões criativas com segurança.

    Reconhecimento internacional

    O esforço encontrou eco. O curta estreou no LA Shorts International Film Festival, um dos principais eventos qualificatórios para o Oscar, com exibição no icônico TCL Chinese Theatre, em Hollywood. Em seguida, acumulou prêmios no Indie Short Fest, incluindo Melhor Direção para Fernanda Neu, além de Melhor Atriz, Melhor Cinematografia e Menção Honrosa em Design de Produção.

    Atualmente, “A Mixtape para o Fim do Mundo” segue em circulação por festivais norte-americanos, com novas seleções em andamento. A obra também está disponível na PBS, uma das maiores redes públicas dos Estados Unidos, que alcança mais de 120 milhões de espectadores mensais.

    O futuro já começou

    Aos 23 anos, Fernanda Neu sabe que o caminho artístico não se constrói com obras-primas instantâneas, mas com consistência.

    “Ninguém criou a obra-prima da vida logo após a faculdade. Mas todos fizeram algo que já mostrava a própria voz artística”, reflete.

    Seu sucesso não é um caso isolado. Ele sinaliza um movimento mais amplo: o de uma geração de cineastas brasileiros que cria suas próprias oportunidades, aposta em narrativas autênticas e ocupa espaços globais sem abrir mão da identidade. Para os próximos anos, Fernanda mantém o foco claro, continuar contando histórias criativas, imaginativas e emocionalmente impactantes. Se depender da mixtape que ela colocou para tocar agora, o cinema brasileiro ainda tem muitos bons capítulos pela frente.




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