Assim Doce
A origem surpreendente da Torta Holandesa.
Conheça a história sobremesa com nome estrangeiro, mas alma 100% brasileira
Foto: Daniel Teixeira - Redação PaladarApesar do nome sofisticado e do imaginário europeu que carrega, a torta holandesa é, do começo ao fim, uma criação 100% brasileira. E talvez seja justamente esse contraste entre o que o nome promete e o que a história revela que torne essa sobremesa tão fascinante.
Na Holanda, país que batiza a receita, as sobremesas tradicionais costumam ir ao forno. Tortas quentes, densas, rústicas. Nada que se pareça com a sobremesa gelada, cremosa e delicada que conquistou vitrines, confeitarias e almoços de domingo no Brasil. A torta holandesa, como a conhecemos, não nasceu na Europa. Nasceu em Campinas, interior de São Paulo, no ano de 1990.
A autora dessa criação é Silvia Maria do Espírito Santo, cozinheira e empresária campineira. Sua trajetória até a torta é tudo menos trivial. Silvia viveu um período difícil na Inglaterra, marcado por um grave acidente que lhe tirou o namorado e deixou sequelas físicas e emocionais profundas. Sem condições de retornar imediatamente ao Brasil, passou a trabalhar como governanta para uma família holandesa.
Foi nesse contexto que a cozinha se tornou refúgio. Silvia preparava sobremesas com frequência, aprendendo técnicas, sabores e, principalmente, a transformar simplicidade em afeto. Anos depois, já de volta ao Brasil e proprietária de um pequeno café no centro de Campinas: o Café Bruges, na rua Irmã Serafina, essas experiências ganhariam forma definitiva.
No livro Se a Vida Tivesse Receita (EV Publicações, abril de 2025), Silvia relembra um episódio decisivo: o dia em que provou um pavê simples, feito com bolachas Maria, creme branco e cobertura de chocolate, servido na casa da amiga de uma vizinha. A sobremesa não tinha sofisticação, mas tinha algo poderoso equilíbrio e sabor. Foi o suficiente para acender a faísca criativa.
O ponto de virada: do pavê à torta.
De volta à sua cozinha, Silvia decidiu recriar a receita, adaptando-a para o serviço em seu café. Retirou o excesso de camadas, estruturou melhor a base e transformou o pavê em torta: duas camadas de bolacha, creme branco no centro e cobertura de chocolate. Simples, elegante e funcional.
O sucesso foi imediato. Mas Silvia não se deu por satisfeita. As bolachas Maria usadas na decoração lateral murchavam com o tempo. Foi então que, em uma feira no Centro de Convivência de Campinas, ela descobriu as bolachas Calipso mais resistentes, visualmente atraentes e perfeitas para manter a estrutura da torta.
Com a receita finalmente estabilizada, faltava o nome. Silvia decidiu homenagear os antigos patrões holandeses para quem cozinhava na Inglaterra. Assim nascia, oficialmente, a torta holandesa.
Quandocolocou a Torta Holandesa à venda no Café Bruges, Silvia percebeu rapidamenteque havia criado algo especial. A cada dia, as fatias desapareciam do balcão empoucas horas, chegando a vender de 12 a 15 tortas inteiras por semana, umnúmero muito acima da média das outras sobremesas do café. Em pouco tempo,clientes começaram a voltar exclusivamente para pedir “aquela torta nova”, efoi nesse movimento constante, quase automático, que Silvia entendeu: tinha nasmãos um verdadeiro sucesso.

Da vitrine do café ao Brasil inteiro.
Com a demanda crescendo, Silvia vendeu o café ao irmão e, ao lado do então marido, Marcos Leite, fundou a Holandesa & Cia. O foco era o fornecimento de doces para restaurantes, mas a realidade se impôs: mais da metade das encomendas era de torta holandesa.
A década de 1990 marcou a consolidação do negócio. Em 1998, após participar de uma feira do Sebrae, a empresa passou a distribuir suas tortas para diversas regiões do Brasil. Em 1994, Silvia tentou registrar a patente da sobremesa, mas o pedido foi negado. O nome era popular demais e remetia a uma nacionalidade: a torta, então, entrava definitivamente em domínio público.
Em 2005, após desentendimentos societários, a empresa foi vendida e passou a se chamar Mr. Bey Alimentos, sob o comando de Marcelo Beyruti, empresário e executivo, casado com Daniela Abravanel, filha de Silvio Santos. A torta holandesa permaneceu como um dos carros-chefe da marca.
Os segredos da receita
Apesar da aparente simplicidade, Silvia sempre fez questão de dizer: a torta holandesa não admite atalhos.
Alguns cuidados fazem toda a diferença:
Massa: A manteiga deve estar em temperatura ambiente para se misturar corretamente à bolacha triturada.
Creme de baunilha: O cozimento deve ser em fogo baixo, mexendo sempre, para evitar grumos e garantir textura aveludada.
Montagem: A base com o creme precisa ir ao freezer antes da cobertura. Só assim a torta ganha firmeza e corte perfeito.
Curiosamente, a cobertura original não é uma ganache francesa, mas um creme de chocolate feito com leite, margarina, açúcar e achocolatado solução simples, brasileira e extremamente eficaz.
Receita original de Silvia
Ingredientes
Creme
- 200g de manteiga
- 200g de açúcar
- 3 gemas grandes
- 2 latas de creme de leite sem soro
- Essência de baunilha
Montagem
- 1 pacote de bolachas Maria
- 1 pacote de bolachas Calipso
Cobertura
- 375 ml de leite
- 25 g de margarina sem sal
- 1 colher (sopa) de açúcar
- 125 g de achocolatado
Modo de preparo
Bata a manteiga, o açúcar e as gemas até formar um creme claro. Acrescente o creme de leite e bata em velocidade baixa até incorporar.
Para a cobertura, misture todos os ingredientes e leve ao fogo até reduzir bem, formando um creme espesso “uns bons minutos”, como define Silvia.
Na montagem, umedeça as bolachas Maria no soro do creme de leite misturado com baunilha e forre o fundo da forma. Disponha as bolachas Calipso em pé, com o chocolate voltado para fora. Acrescente o creme e leve ao freezer por 24 horas. Cubra com o chocolate e volte ao freezer. Retire apenas algumas horas antes de servir.
Entre o cuidado e a tradição
Silvia acompanha sua criação com o zelo de quem sabe o que fez. Rejeita adaptações com gordura hidrogenada, gelatina, leite condensado ou “ingredientes da moda”. Para ela, a torta holandesa tem identidade e não deve ser descaracterizada.
Curiosamente, Silvia é apaixonada pela Holanda. Já visitou Amsterdã três vezes, onde busca queijos, stroopwafels e tortas locais.
A torta é uma sobremesa brasileira, de nome estrangeiro, criada por alguém que entendeu que a cozinha também é lugar de reconstrução: onde a memória encontra repouso e a vida, finalmente, aprende a ser doce outra vez.




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