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Brasil,12/03/2026

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    Influenciadores, fama digital e universidade: a educação formal ainda faz sentido?

    Reflexão do professor Flávio Osten analisa por que o conhecimento estruturado continua sendo essencial mesmo na era da visibilidade digital


    Influenciadores, fama digital e universidade: a educação formal ainda faz sentido? Azeitona Comunicação

    O imaginário de sucesso entre jovens sempre acompanhou as transformações da sociedade. Em outras décadas, o sonho mais comum entre crianças brasileiras era tornar-se jogador de futebol profissional. Inspirados por ídolos que conquistaram fama e fortuna dentro de campo, muitos viam no esporte a oportunidade de ascensão social e reconhecimento público.

    Hoje, esse cenário mudou. Com o crescimento das redes sociais e da chamada economia da atenção, uma nova aspiração domina o imaginário de muitos adolescentes: tornar-se influenciador digital. Produzir vídeos, conquistar seguidores e alcançar viralizações parece, para muitos, um caminho rápido para a visibilidade e o sucesso financeiro.

    Uma pesquisa da startup INFLR, especializada em marketing de influência, indica que cerca de 75% dos jovens manifestam o desejo de trabalhar como criadores de conteúdo, especialmente em plataformas como o YouTube. O fenômeno revela uma mudança cultural importante, mas também levanta um debate cada vez mais presente: a educação formal ainda é necessária em um mundo onde a fama digital parece oferecer atalhos para o sucesso?

    Essa reflexão é abordada pelo professor Flávio Osten, doutor em Administração e docente da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ao analisar como exemplos de sucesso fora da universidade acabam influenciando a percepção de muitos jovens sobre o valor da formação acadêmica.

    A percepção de que a universidade pode ser dispensável é frequentemente reforçada por exemplos de celebridades que não concluíram o ensino superior. Personalidades como Neymar, Ronaldo Fenômeno, Felipe Neto e Whindersson Nunes são frequentemente citadas como prova de que talento, visibilidade e oportunidades digitais podem substituir a formação acadêmica.

    Entretanto, esses casos representam exceções — não a regra.

    No futebol brasileiro, por exemplo, dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) mostram que a maior parte dos atletas profissionais recebe salários bastante modestos, muitas vezes próximos de R$ 1.000 mensais. A realidade da criação de conteúdo também costuma ser menos glamourosa do que aparenta: apenas uma pequena parcela dos influenciadores alcança ganhos elevados, enquanto a maioria recebe valores modestos ou enfrenta grande instabilidade financeira.

    Ou seja, embora histórias de sucesso ganhem grande visibilidade, elas não refletem a experiência da maioria das pessoas que tentam trilhar esses caminhos.

    No mundo dos negócios e da inovação, a situação é semelhante. Frequentemente são citados exemplos de empreendedores famosos que abandonaram a universidade, como Bill Gates ou Mark Zuckerberg. O detalhe muitas vezes ignorado é que ambos estudavam em Harvard, uma das universidades mais seletivas do planeta.

    Como observa Flávio Osten, ingressar em uma instituição desse nível revela um histórico acadêmico de excelência. Além disso, Gates obteve pontuação quase máxima no SAT — exame equivalente ao ENEM nos Estados Unidos — antes mesmo de iniciar sua trajetória empresarial. Ou seja, esses exemplos não representam rejeição ao conhecimento, mas sim trajetórias profundamente marcadas pelo estudo e pela dedicação intelectual.

    Esse contexto ajuda a explicar por que a educação formal continua sendo considerada essencial em diversas áreas.

    Em primeiro lugar, a formação acadêmica contribui para o desenvolvimento de pensamento crítico, capacidade analítica e repertório conceitual. Em ambientes profissionais cada vez mais complexos e incertos, saber interpretar dados, avaliar cenários e tomar decisões fundamentadas tornou-se uma competência indispensável.

    Além do conteúdo técnico, a universidade também funciona como um espaço de aprendizado social. Trabalhos em grupo, debates em sala e desafios acadêmicos ajudam a desenvolver habilidades como comunicação, colaboração e gestão de conflitos — competências cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho.

    Outro aspecto relevante é a empregabilidade. Em muitas profissões, diplomas e certificações continuam sendo pré-requisitos para o exercício da atividade. Além disso, o ambiente universitário facilita a construção de redes de relacionamento que podem se transformar em oportunidades profissionais no futuro.

    Mas talvez o argumento mais importante esteja no impacto coletivo da educação.

    Sociedades que investem em formação qualificada tendem a produzir mais inovação, tecnologia e soluções para problemas complexos. Profissionais como médicos, engenheiros, pesquisadores, gestores e educadores são responsáveis por manter funcionando estruturas essenciais para a vida em sociedade — mesmo que suas trajetórias raramente ganhem destaque nas redes sociais.

    Em um mundo marcado pela velocidade da informação e pela valorização da visibilidade digital, pode parecer tentador acreditar que o sucesso depende apenas de talento individual ou de uma oportunidade viral. No entanto, como destaca Flávio Osten, a construção de carreiras sólidas e o avanço da sociedade continuam profundamente ligados ao conhecimento estruturado e à formação qualificada.


















    Sonhar com fama nas redes sociais pode ser inspirador. Mas, para a grande maioria das pessoas, investir em educação ainda é um dos caminhos mais consistentes para conquistar estabilidade, crescimento profissional e capacidade real de impactar o mundo.




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